24/08/2021

NEIM Doralice Teodora Bastos e a perspectiva dos territórios brincantes

E se a sala, o quarto, a cozinha ou qualquer outro canto da casa fosse um espaço de exploração e investigação da infância? Quando a pandemia se instalou, foi esta provocação que levou o Núcleo de Educação Infantil Municipal de Florianópolis Doralice Teodora Bastos, localizado no bairro de Canasvieiras, a desenvolver o projeto “A casa enquanto território do nosso brincar”, que convidou as crianças e seus familiares a transformar estes ambientes em territórios brincantes, permitindo que os pequenos continuassem vivenciando descobertas e aprendizagens mesmo longe do espaço físico da escola. 

territórios brincantes“Elegemos alguns espaços da casa e pensamos em brincadeiras para cada um deles que contribuíssem para as experiências da infância”, conta  Cláudia Ten Caten, diretora da unidade. Nesta perspectiva, o material  indica brincadeiras que vão desde a observação da vida no quintal e acampamento no quarto até um piquenique na cozinha.

Além de transportar a memória afetiva que as crianças tinham com estas atividades da creche para casa, o projeto tem possibilitado o estreitamento de vínculos entre elas e suas famílias ao colocá-los para interagirem e se divertirem juntos. “Com a pandemia, houve bastante discussão sobre como manteríamos esse vínculos com as crianças e famílias já que a Educação Infantil não compactua com o ensino remoto”, diz Carmen Lúcia Nunes Vieira, assessora pedagógica no Núcleo de Formação, Pesquisa e Assessoramento da Educação Infantil (NUFPAEI) da Secretaria Municipal de Educação de Florianópolis (SC).

Nesta perspectiva, o caminho escolhido foi o do envolvimento e do apoio. “Sempre tomamos o cuidado de dizer que não estávamos transferindo a docência para as famílias, mas sim que elas pudessem brincar com as crianças e possibilitar vivências que as unidades permitiam”, acrescenta Simone Cristine Silveira Cintra, também assessora pedagógica no NUFPAEI. 

O que são territórios brincantes?

A proposta de trabalhar com a estruturação de territórios brincantes no NEIM Doralice Teodora Bastos, no entanto, é anterior à pandemia. Teve início em 2017 quando a comunidade escolar fez uma avaliação e percebeu uma desconexão entre algumas das suas ações. “Então olhamos para algumas terminologias como brincadeira, colaboração, autonomia e trabalhamos filosoficamente estes conceitos”, conta Cláudia.

O estudo levou à modificação de diversas ações e ambientes da unidade e a equipe foi desenvolvendo espaços coletivos onde as crianças pudessem interagir, cada um com uma linguagem e objetivo – os territórios brincantes.

O “Território Restos do Mundo”, por exemplo, foi montado com o intuito de valorizar o brincar das crianças com coisas pequenas e sobras como retalhos, cacos e pedaços do mundo que na mão das crianças são ressignificados. Já o “Território Arte por toda Parte” foi pensado para valorizar as expressões artísticas, dando destaque a técnicas de pinturas e o desenho em espelhos, permitindo que as crianças explorassem diferentes materiais, se vendo e se reconhecendo em seus traços e produções artísticas.

Patrícia Lúcia Barbosa da Silva, coordenadora pedagógica da unidade, explica que estes espaços devem ser criativos, esteticamente bem pensados, e por isso, muito bem planejados. “Primeiro, há um momento teórico no qual os educadores pensam o planejamento do espaço e os materiais: onde esses territórios vão acontecer, por quanto tempo, etc. Aí chega o grande dia das crianças experimentarem. Cada ciclo dura de 3 a 4 semanas”.

Com a retomada das atividades presenciais em esquema de rodízio, isto é, com a alternância entre duas turmas, a unidade vem também pensando em ações para acolher as crianças da melhor forma possível após tanto tempo afastados. “Na primeira semana, elas voltaram um pouco “que lugar é esse?”, mas ao mesmo tempo tinha muita felicidade de estar naquele espaço. Estamos fazendo agora uma cápsula do tempo para construir coleções de memórias deste momento. A proposta é que as famílias e crianças coloquem nesta cápsula estas lembranças, para num determinado dia, talvez no fim do ano, abrirmos juntos”, conta Cláudia.