18/11/2020

Qual escola nos instrumentaliza para evitar e lidar com novas crises?

Reviravolta da escolaEm meio à pandemia, debates importantes sobre a necessidade de criarmos novas formas de interação vêm ganhando espaço. No tocante à escola, local de convívio por princípio, a discussão recai inevitavelmente sobre a complexidade que vem sendo propiciar um ambiente qualificado e seguro para a aprendizagem de crianças e jovens diante de todas as desigualdades que permeiam o país.

Tal complexidade, no entanto, não deve ser entendida como sinônimo de impossibilidade. O discurso proclamado por algumas entidades sobre o ano de 2020 como um ano de “perda de aprendizado” não é só nocivo, como falso. Apesar dos inúmeros desafios e tragédias trazidas pelo contexto pandêmico, este foi também um ano de múltiplas vivências que ajudam a melhor refletir e construir o futuro que desejamos, incluso, o da educação, diz Walquiria Castelo Branco, do CESAR School. 

“A ideia da perda curricular está presente no discurso dos que ainda trazem uma perspectiva da escola conteudista, como espaço somente da escolarização. Mas quando se olha para o mundo inteiro, para as famílias, alunos, educadores, fica evidente que houve um grande aprendizado que foi repensar qual o modelo de escola que a gente precisa para daqui em diante não só para lidar com novas pandemias, mas catástrofes climáticas e outras crises que eventualmente virão”, diz.

Para a educadora, o ponto central neste debate é: como preparar a escola para trabalhar com esses novos conhecimentos e com aqueles que ainda não estão dados, isto é, para a aprendizagem a partir do desconhecido. “E aqui vale dizer que não estamos partindo do zero. Há diversas escolas hoje no Brasil que demonstraram qualidades nestes aspectos e que precisam ser mapeadas e compartilhadas”.

Em comum, todas elas foram exitosas em incluir suas comunidades na escola e vice-versa, dando respostas territorializadas para seus alunos e famílias, aponta Walquiria. “O que não funcionou foi insistir em dar um conteúdo ou resposta única para todo mundo independentemente do contexto local.” 

Meio ambiente e Covid-19

Outra abordagem necessária é a relação do novo coronavírus com a crise do meio ambiente. Um estudo realizado pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), em 2016, já mostrava que cerca 60% de todas as doenças infecciosas emergentes nos seres humanos são zoonóticas e estão intimamente ligadas à saúde dos ecossistemas.

Segundo o relatório, no século passado, “uma combinação de crescimento populacional e redução de ecossistemas e de biodiversidade culminou em oportunidades sem precedentes para a transmissão de patógenos entre animais e pessoas”. Em média, uma nova doença infecciosa surge em humanos a cada quatro meses, diz o estudo.

Esta preocupação, entre tantas outras ligadas à destruição do meio ambiente, deu origem ao Movimento Escolas pelo Clima, que vem constituindo uma comunidade de escolas comprometidas com a presença da temática em atividades pedagógicas e na formação de professores ao longo de 2021. 

“Para além das desigualdades sociais, vivemos uma desigualdade ambiental fruto do nosso afastamento da natureza. A urbanização desenfreada está na raiz da emergência dessa pandemia”, alerta Edson Grandisoli, idealizador da iniciativa e co-autor do livro “Temas atuais em mudanças climáticas: para os ensinos fundamental e médio”.

Hoje, o projeto se responsabiliza por articular e fornecer subsídios para que essas organizações possam trabalhar com propriedade sobre tema. Além disso, Edson vem trabalhando com o que ele chama de competências e habilidades climáticas. “Seguimos a ideia da BNCC para escrevê-las. Por ser um tema sistêmico e complexo, entendemos que deve ser trabalhado de forma interdisciplinar e não somente ficar na mão dos professores de Ciências, mas adentrar todas as áreas de conhecimento.” 

Esta conexão entre os problemas reais do mundo e a escola são a chave não só para a formação de gerações mais conscientes, mas também capacitadas para antever e buscar soluções para as questões que afligem seus territórios. Mas para que isso seja possível, é preciso que as políticas públicas apoiem estas estratégias. “Se fala hoje do “novo normal”, mas como falar isso para quem nunca teve o normal? Como colocar a questão ambiental como prioridade para essas pessoas que ainda falta o básico? A pandemia antecipou algumas tendências educacionais em 10 anos, como a incorporação da tecnologia, mas é preciso garantir que isso chegue a todos”, finaliza Edson.

 

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