Por que a intersetorialidade é uma abordagem inovadora

A organização educativa não é uma ilha. Inserida em um contexto muito mais amplo e complexo, ela deve dialogar com outros agentes do território e setores a fim de fomentar uma rede de garantia de direitos para seus estudantes e famílias. Em suma, deve buscar a intersetorialidade como estratégia inovadora para que responsabilidades, metas e recursos sejam compartilhados, dando conta dos indivíduos em todas as suas dimensões. 

No âmbito das políticas públicas, Cleuza Repulho, ex-presidente da União dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime), destaca dois principais motivos pelos quais a intersetorialidade tem significância. “Primeiramente, trabalhar de forma articulada otimiza recursos e, no cenário atual de redução de investimentos, isso se torna ainda mais importante. A educação não tem técnicos nem dinheiro para dar conta de todos os desafios, portanto, é essencial buscar parcerias”, defende.

Cleuza lembra ainda que políticas integradas têm resultados mais perenes. “Quando você tem esse tipo de articulação, faz com que o governo, seja ele municipal ou estadual, garanta a entrega das políticas, pois uma acaba dependendo da outra. Para mim, é impossível pensar educação de qualidade sem pensar, por exemplo, em políticas de Saúde e Assistência Social. Somente quando outros setores estão fazendo seu trabalho é possível a escola fazer o seu, que é produzir conhecimento.”

Desafios e oportunidades

Se na teoria esta defesa parece fazer parte de um consenso, na prática, ainda são muitas as barreiras que dificultam sua aplicação como a falta de uma cultura de diálogo e trabalho em rede ou até mesmo a indisponibilidade para garantir contato regular e frequente com outros agentes do território.

Alexandre Isaac, do Cenpec, explica que a intersetorialidade ainda tem dificuldade para sair do discurso. “Há políticas para infância e adolescência no Esporte, no Meio Ambiente, na Saúde, mas poucas gestões as convergem. O que é um engano pois essa criança ou adolescente não é setorizado, ele é o mesmo. Além disso, temos muitas pesquisas no Cenpec que mostram que os municípios que conseguiram êxito na educação lançaram mão da estratégia da intersetorialidade”, conta.

No viés pedagógico, Alexandre defende que essa estratégia permite a ampliação de tempos, espaços e sujeitos no processo educativo. “As organizações sociais e outros atores do território têm um acúmulo que é agregador, trazem um currículo que não é igual ao da escola e que contribui com a oferta e diversificação das oportunidades de aprendizagem.”

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Comunidade reunida na Fundação Casa Grande – Memorial do Homem Kariri

Além disso, reunir educadores e profissionais de diferentes áreas cria oportunidades únicas de leitura de mundo e formação. É por esse motivo que na Fundação Casa Grande Memorial do Homem Kariri, localizada em Nova Olinda (CE), a articulação com outros agentes do território é um dos pilares que sustentam o projeto político e pedagógico.

Trabalhando com programas de Educação Infantil até a profissionalização de jovens, a instituição possui parcerias com escolas, SESC, equipamentos culturais, entre outras esferas, para diversificar as vivências ofertadas aos alunos em áreas como Arqueologia Social Inclusiva, Gestão Social, Turismo Comunitário, Comunicação Social, Produção Cultural e Meio Ambiente.

“Hoje, por exemplo, temos o museus orgânicos que são museus dentro das casas dos mestres populares da região. Ali, as crianças e jovens aprendem sobre reisado, artesanato, entre outros saberes”, conta a diretora Fabiana Barbosa.

Outra frente de atuação da Fundação é o fortalecimento da cadeia produtiva da economia da região do Cariri cearense por meio da oferta de produtos e serviços. “Temos o programa de Geração de Renda Familiar. Pousadas, restaurantes, lojinhas e outros negócios criativos de cultura permitem que as crianças permaneçam na escola e nos programas. E esse valor gerado vira um completo para a renda das famílias”, explica Fabiana.

É nesse trabalho sinérgico com o entorno que acredita Alexandre. “A organização educativa não pode se isolar, ela está dentro da comunidade e precisa estar aberta para ela”. Pois como já dizia o provérbio africano “é preciso toda uma aldeia para educar uma criança.”