Como se dá a inovação escolar no âmbito da gestão

Da formação da equipe pedagógica ao aprimoramento dos processos de participação de alunos, famílias e comunidade, as atribuições da gestão escolar vão muito além do cumprimento de tarefas burocráticas. É, inclusive, o sucesso desta esfera em frentes complexas como a pedagógica, financeira, de recursos humanos e infraestrutura que proporciona a base para a qualidade do processo de ensino-aprendizagem e a consolidação da escola como um espaço democrático.

Além disso, a gestão é peça fundamental para assegurar a continuidade de iniciativas de transformação, como aponta José Pacheco, co-criador da EcoHabitare e membro do Movimento de Inovação na Educação (MIE). “Projetos inovadores não serão projetos de professor isolado, solitário, porque um projeto educacional é um ato coletivo, projeto de equipe, de uma escola integrada numa comunidade, dotada de autonomia pedagógica, administrativa e financeira. E, para que uma inovação seja sustentável, deverão ser criadas condições de disseminação.”

No entanto, não são poucas as barreiras que se colocam no Brasil para que gestões pratiquem a inovação. Entre as principais, diretores e coordenadores pedagógicos apontam políticas públicas que engessam o sistema, uma cultura escolar centralizadora e hierárquica, além de uma formação pedagógica conservadora.

Outro equívoco comum está no entendimento de que basta inovar na ponta, isto é, nas práticas pedagógicas desenvolvidas pelos professores com seus alunos. “Sem mudança no todo, estas acabam se tornando muito mais mudanças cosméticas do que mudanças profundas, que tenham coerência com o trabalho como um todo e que se sustentem a longo prazo”, explica Andressa Lutiano, fundadora da Wish School, escola localizada no bairro do Tatuapé, em São Paulo, que adota a gestão coletiva. “A prática pedagógica acompanha o mais novo modismo e a gestão segue em uma função de comando e controle, centralizando e burocratizando os processos, ainda que mais modernos ou mais tecnológicos”, acrescenta.

gestão escolar

Encontro com as famílias na EMEI Nelson Mandela

Princípios de uma gestão escolar inovadora

Se a gestão escolar é a medula para a proliferação de demais práticas inovadoras, esta deve ter como princípio o fomento de estratégias que considerem todos os atores envolvidos no processo educativo, a integração da gestão administrativa à pedagógica e o protagonismo dos alunos.

Na Wish, a escuta das crianças e de seus interesses acontece o tempo todo. Elas circulam pelos mesmos lugares que os adultos e o acesso às pessoas é sempre garantido. Não há sala da diretoria ou qualquer outro espaço restrito. Por exemplo, a mesma agenda da direção que está disponível para os adultos agendarem conversas com a direção também pode ser acessada pelas crianças”, conta Andressa.

Integração e escuta também fundamentam a gestão escolar da EMEI Nelson Mandela, localizada no bairro do Limão, em São Paulo (SP). “Temos uma diretora que não somente resolve questões administrativas e burocráticas, mas que está presente no aspecto pedagógico da escola, nas formações coletivas com os professores, que ajuda a pensar as práticas pedagógicas com todos”, conta a coordenadora pedagógica Marina Basques.

Outro alicerce da EMEI está no fortalecimento da comunidade escolar e da gestão democrática. “Todos aqui são entendidos como educadores. Então há os educadoras da limpeza, da cozinha, da secretaria, e todos eles participam das decisões do cotidiano da escola”, conta Marina. A instituição também faz questão de abrir suas portas para o entorno com a realização de diversas ações, entre elas, o conselho de escola que envolve a participação da comunidade local e das famílias visando a construção de vínculos.

Trabalhando com agrupamentos estudantis multietários, a Maré da Kids, situada em Cotia (SP), também é referência quando o assunto é gestão democrática. A escola procura solucionar os problemas levantados pelos alunos em assembleias, que geram pesquisas para que eles próprios tracem soluções. “Fazemos também votações com todas as crianças para tomar decisões simples como decidir o que será feito com as galinhas que estão comendo os insetos da agrofloresta”, conta Regina Pundek, diretora pedagógica da escola.

Longe de ser vista como um problema, a diversidade de opiniões – inclusive, das famílias – é entendida como um potencial da instituição. “Formas distintas de comunicar vêm sendo experimentadas para que se consiga abraçar essa diversidade. Atualmente, temos usado a tecnologia como grupos de Whatsapp, que geram oportunidades para que todos possam se manifestar. E vamos aprendendo todos juntos”, conclui Regina.