11/05/2020

Como jovens têm se mobilizado diante do contexto de Covid-19

“Você pode me ligar daqui a pouco? Estou fazendo algumas entregas de cestas de alimentos agora!”. Desde que o contexto pandêmico de Covid-19 se instaurou, a rotina de Felipe Rocha, 20 anos, tem sido essa correria. Morador de Costa Barros, bairro periférico da Zona Norte do Rio de Janeiro, Felipe se levanta cedo pela manhã para assistir às aulas online da faculdade. Em seguida, vai para o front: percorre a comunidade para fazer as entregas das cestas básicas arrecadas por meio ONG que integra, a Visão Restaurar

“Em nossa comunidade há uma precariedade muito grande, com uma série de descasos que vão da saúde à segurança. E cerca de 80% dos moradores sobrevivem do trabalho informal. Então, quando chega a pandemia e a necessidade do isolamento social os impactos são enormes”, conta.

Por estes fatores, Felipe e os outros integrantes da ONG começaram a discutir que ações deveriam tomar antes mesmo da Covid-19 desembarcar no Brasil. “Acompanhávamos o que estava acontecendo em outros países e começamos a já nos preparar para o cenário, pensando em soluções. Precisávamos de uma resposta rápida.” 

Quando os primeiros casos em território brasileiro foram confirmados, toda uma rede estava mobilizada. “Uma família de camelô nos procurou pedindo ajuda. A realidade é que essas pessoas ganham por dia, então cada dia não trabalhado é um problema. Assim, começamos a entrega das cestas básicas que arrecadamos por meio de doações, divulgadas principalmente por meio das redes sociais. Cada organização – do seu tamanho e do seu jeito – se uniram. Esse talvez seja o aspecto positivo: a solidariedade que temos visto”, conta o jovem. 

O cenário desafiador da pandemia também levou o Projeto Geração que Move a se adaptar. Desenvolvida pela UNICEF e Fundação Abertis em bairros periféricos de São Paulo e Rio de Janeiro, com o apoio da Viração e da Agência de Redes para Juventude respectivamente, a iniciativa foi idealizada para discutir e exercer entre os jovens das periferias das duas cidades questões como mobilidade urbana, direito à cidade e direitos humanos

Com o alastramento do novo coronavírus, no entanto, o projeto passou a organizar oficinas virtuais envolvendo diversos temas disparadores que se relacionam com o atual contexto. “Identificamos que muitos jovens não tinham acesso à internet, então tivemos que reduzir nossa atuação para cinco jovens por território. O objetivo central agora é que os jovens possam ser mobilizadores de outros jovens”, explica Aline Nogueira, que lidera o projeto nos territórios do Grajaú e Jardim Ângela ao lado de Scheila Leandro. 

Os encontros propõem algumas atividades como desdobramento. Na semana passada, por exemplo, a sugestão foi que os jovens gravassem vídeos contando como estava sendo os impactos da pandemia em suas vidas e entornos. “A pergunta provocadora que colocamos era se a quarentena é igual da “ponte pra cá” a quarentena “da ponte pra lá”. E foi muito bacana as várias reflexões que vieram. Já essa semana, a ideia é que eles se entrevistem sobre a Covid-19”, conta Scheila.

Obstáculos e caminhos

Os relatos casam com achados colhidos pelo Em Movimento, aliança de organizações voltada para o fomento do campo das juventudes no Brasil, que vem organizando uma série de webinários com jovens sobre o tema, além de uma vasta pesquisa com lançamento previsto para junho.

“No primeiro diálogo que fizemos, trouxemos jovens com atuações em campos diversos como articulação, produção cultural, jornalismo, especialmente aquele feito pelas periferias. E entre as coisas que apareceram estava a questão das desigualdades sociais, que se escancararam neste momento, da falta de políticas públicas para a juventude e também a questão da saúde mental”, conta Nayra Lays, que integra a Comunicação da iniciativa. 

Segundo a jovem, fica claro como o cenário tem sido especialmente desafiador para as juventudes periféricas. “Uma coisa que foi falada nos webinários é o quanto estes jovens estavam começando a experimentar o exercício da experiência antes da sobrevivência, mas agora muitos saem desse estágio para voltar a olhar para as necessidades primárias”, diz.  

Mariana Resegue, secretária-executiva do Em Movimento, comenta ainda sobre outro obstáculo: a falta de conectividade: “Não é todo mundo que tem acesso ao Wifi ou internet de banda larga. Muito se fala sobre Educação a Distância, mas é preciso ficar atento porque vários jovens não têm essa possibilidade e podem acabar se distanciando ainda mais da escola.” 

Para ela, o momento urge a escuta das angústias e anseios destas gerações. “Os jovens são o motor propulsor da sociedade, a porta de entrada da inovação. Se não abrimos essa porta agora perderemos inovações que vão mudar a vida de todos. Mas abrir essa escuta não é só abrir canal, é construir coisas juntos. Acredito que através disso vamos superar várias questões difíceis e sistêmicas que estamos vivenciando”, finaliza.