09/12/2021

Bem dissera Darcy que a crise da educação não era uma crise, mas um projeto

Por José Pacheco

Maricá, 3 de dezembro de 2041

Nos meus noventa anos, não esqueço a primeira visita à casa onde viveu Darcy Ribeiro. A Adriana, a Cláudia, a Andréa e a Natália me levaram até lá, na manhã de um dia de finais de novembro, que jamais olvidei. Nessa casa, me deixei possuir por forte emoção. Nesse lugar teve início um projeto, que resgataria a memória do insígne Mestre. O espírito de Darcy se fez presente, num breve encontro com excelentes educadores. Darcy regressava ali,  onde se recuperava a sua memória. Ali, nele inspirados, esboçamos novos rumos para a Educação de Maricá e do Brasil.

Ali, Dacy escrevera derradeiras palavras, quando o câncer consumia o seu último sopro de vida, depois de sofrer um longo exílio, enquanto o seu país dormia distraído, “sem perceber que era subtraído em tenebrosas transações”.

Nos idos de vinte, o Brasil ainda não conseguira acordar de um sono de séculos. A lei, que fizera aprovar, nos idos de noventa, continuava letra morta.

Imaginai, queridos netos, que os autores de uma inútil reforma acreditavam que o sistema iria melhorar com “boletins e reprovações, quando um período por dia fosse dedicado ao desenvolvimento de atividades interdisciplinares, ou quando houvesse espaço para que professores trabalhassem por projetos em algumas disciplinas”. “Em algumas disciplinas”, lestes bem. Ou, ainda, quando “no último ciclo, os alunos fossem protagonistas do próprio aprendizado (sic)”.

Entristecíamos, quando víamos que aqueles que detinham o poder denegriam a memória de Anísio, de Freire, do Lauro. Com Darcy, constituíam “o quarteto mais fecundo, fértil e injustiçado da história da educação em nosso país”.

Desgovernantes lamentavam que apenas um terço dos alunos apresentassem conhecimento adequado ou avançado em português e em matemática; ou que, na oitava série, apenas um quarto estivesse em nível adequado nessas disciplinas. Despudoradamente, ressuscitavam medidas de retrocesso, que perenizavam o velho paradigma escolar, reprodutor de oprimidos e opressores, que o malogrado secretário de educação Paulo Freire tanto denunciou.

Nos idos de vinte, medidas de manutenção do desperdício de dinheiro e de gente serviam apenas para perpetuar o analfabetismo, numa escola que já produzira mais de trinta milhões de analfabetos. Restava saber se os reformadores agiam por ignorância ou por loucura. Eram ignorantes aqueles que desprezavam a produção científica, que ignoravam a existência de práxis coerentes com a tua Lei de Bases, quem tomavam decisões desprovidas de bom senso. Também um súbito acesso de loucura poderia ter ocorrido, pois já o sábio Einstein nos avisava que “a maior insanidade é continuar fazendo sempre a mesma coisa e esperar resultados diferentes”.

Essas inúteis “medidas” eram apregoadas com pompa e circunstância, na comunicação social, como se de algo sério se tratasse. Bem dissera Darcy que a crise da educação não era uma crise, mas um projeto. E afirmara:

Brasil, o último país a acabar com a escravidão, tem uma perversidade intrínseca na sua herança, que torna a nossa classe dominante enferma de desigualdade, de descaso”.

Milhões de jovens tinham sidos condenados à ignorância, por via de desastrosas políticas. Mas, num novembro de há vinte anos, a secretaria de educação de Maricá reassumiu as denúncias e respondeu aos apelos de Darcy, tomando em suas mãos a missão do egrégio Mestre, que dissera ter falhado em tudo o que tentara fazer. Celebrando o seu exemplo e memória, educadores maricaenses fizeram com que, depois de tenebrosos tempos, luminosos tempos chegassem.