10/06/2021

Acorda pai! Já é dia!

Por Denis Plapler

Acorda pai! Já é dia! Com esta frase diariamente meu filho se habituou a me despertar por volta das 6h da manhã, ansioso pelo dia. Meu filho, minha luz, nossa luz, desperta com a vontade de viver o dia, vontade de vida. Meu despertador, meu antidepressivo em tempos de pânico social mundial, meu amor profundo. Ainda que bem cedo não me é possível permanecer deitado e deixar castrar qualquer alegria. Levanto feliz por poder abraçar-te a espera de seu abraço que me conforta acomodado no peito e mata a minha vontade de dormir para estar com você. Vale aqui pensar na realidade de tantas crianças que já ao despertar se deparam desde sempre com realidades violentamente inadequadas capazes de lhes retirar a alegria e, inclusive, a oportunidade de boas noites dormidas.

A pandemia da Covid-19 trouxe também a oportunidade de estar junto a meu filho e minha família de um modo que jamais havia sonhado. Eu que há pouco já havia agradecido o privilégio de uma generosa licença paternidade de 45 dias (coisa rara no Brasil), agora me vi ao mesmo tempo em pânico pelo medo da morte, medo de perder pessoas queridas, pânico diante de tantas dores, nossas e dos outros, uma tragédia histórica mundial. Mas ao mesmo tempo abençoado pela possibilidade de estar junto de meu filho todos os dias, o dia todo, e também às noites, nem sempre bem dormidas, com a exaustão de precisar ao mesmo tempo organizar a casa, as responsabilidades do trabalho e as da paternidade, alternando com sua mãe e empenhando-nos em cuidar de nossa relação também, diante disto tudo.

Muita coisa precisou ser alterada para que ao longo da pandemia nossa prioridade radical fosse a vida, a sobrevivência, permanecermos vivos até a descoberta e oferta de uma vacina. Está chegando! Muitas vidas seriam salvas se tivéssemos um verdadeiro presidente.

Assim próximos passamos já mais de 12 meses. Do acordar ao fim do dia fui obrigado a aprender tanto ao realizar as mais diversas tarefas, criativas ou rotineiras, de alimentá-lo do café, almoço e janta, das fraldas e roupas trocadas, das conversas e brincadeiras, dos passeios, risos e abraços. O menino que entrou na pandemia aprendendo a falar hoje fala pelos cotovelos. Como pai tive a oportunidade de estar atento a todos os detalhes, inclusive, atento à necessidade de afastamento, nos milhares de desdobramentos criados pela nossa família para que um filho único não permanecesse por tão longo tempo distante de outras crianças, também por questão de saúde física-mental.

Hoje sinto que para estes pequenos a pandemia teve um impacto diferente do trauma social gerado na população mundial, não apenas adulta, mas mesmo nas crianças maiores, já com vínculos e compromissos sociais mais firmados, que perderam mais que os pequeninos privilegiados pela pandemia com a presença de suas mães e pais em casa, mais presentes, não necessariamente mais próximos, infelizmente. Sem ignorar também os traumas relacionados ao isolamento prolongado atrelado à solidão infantil devido à falta de convivência com seus pares.

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(Arquivo Pessoal)

É verdade também que muitas vezes perdi a paciência, fico cansado, culpado, mas com o horizonte de me manter conectado ao meu filho como prioridade, de fato presente conversando olhando para os seus olhos, de escuta atenta esvaziada de preocupações do trabalho e mensagens do WhatsApp. Nesta geração de tantas crianças diagnosticadas como autistas e renegadas ao espaço do não lugar, quão necessário e urgente é conversarmos com as crianças sobre as nossas relações com as novas tecnologias. Desconectar da leitura de um importante e-mail para dar atenção a um filho que quer lhe mostrar o seu desenho, ou uma folha que encontrou no jardim, é um desafio de autocontrole sério e necessário para este mundo pandêmico digital de home office, para saúde física-mental das crianças e para saúde das nossas relações com elas.

As crianças nos encantam pois vivem encantadas, para elas tudo é novo, tudo é novidade e, portanto, motivo de novas aprendizagens diversas. É comum que adultos tenham perdido já este encantamento pelas durezas da vida. É fundamental atentarmos a isto para não reproduzirmos atitudes demasiadamente castradoras das criatividades e inteligências das crianças, fundamentais para o seu desenvolvimento como pessoas. A casa, o quarto, o jardim, o quintal, são espaços imensos de aprendizagens infinitas.

Pesquisas recentes foram realizadas para reforçar as oportunidades presentes neste contexto desafiador, o Território do Brincarcoordenado por Renata Meirelles, na companhia do pesquisador cinegrafista David Reeks e pesquisadores como Gabriel Limaverde, produziram materiais específicos para este contexto de pandemia, valorizando belíssimas referências do brincar em casa. São referências criteriosas no respeito à integridade das crianças, distintas daquilo que se formou como senso comum irreflexivo de uma educação pandêmica dependente das telas e  esvaziada de experiência de vida, desintegrada da natureza.

No Brasil pré-pandêmico contávamos já com deprimentes 5,5 milhões de crianças vítimas do abandono paterno (Censo Escolar), 47 mil crianças em situação de abrigo (CNJ), 8,7 mil crianças a espera de adoção (Cadastro Nacional de Adoção), somados a 50 denúncias diárias de abuso sexual infantil (Disque 100). O genocídio brasileiro promovido pelo encontro do Bolsonarismo com a Covid-19 agravou severamente esta realidade e estamos ainda a contar os nosso número de órfãos.

Ser pai implica em reconhecermos a profundidade do vínculo paterno em suas amorosidades e responsabilidades. Responsabilidade não apenas em prover, mas alimentar, amparar, cuidar, assegurar integridade física e moral, conversar muito,  sempre, responsabilidades imensas com o presente e com o futuro destas tantas crianças, frutos da magia humana do poder de criar e dar vida, de reproduzir. Desafios imensos principalmente para pessoas marginalizadas pela violenta desigualdade social brasileira de raízes históricas que tantos talentos desperdiça e faz reféns tantas crianças.

O nosso trabalho como Associação Janusz Korczak Brasil está amplamente vinculado à dedicação e entrega pela educação das crianças e adolescentes, assim como comprometido com os direitos fundamentais para construção de uma sociedade na qual as crianças são pessoas cidadãs portadoras de direitos políticos, dignidade e integridade legal. Um horizonte distante para um Brasil no qual o Estado ainda mata crianças, com a PM cumprindo até hoje as ordens do sinhô, e um presidente delinquente que se tornou um genocida indiferente à pandemia que arrasou o país com já aproximadamente quase meio milhão de vítimas, até a produção deste texto.

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José Gerson segura camisa do filho morto por uma “bala perdida” no RJ – Foto Agência Brasil – Fernando Frazão

Assim como Janusz Korczak colaborou com a Comissão Universal da Criança (1959), nosso ex-Presidente da AJKB, Dalmo de Abreu Dallari foi um dos juristas escritores do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) no Brasil. Entretanto, sabemos que para consolidar estes direitos o Estado precisa promover políticas públicas e, para tanto, a sociedade precisa mobilizar-se para isto, cobrar e apoiar.

Nós, da Associação Janusz Korczak Brasil, iniciamos um trabalho de colaboração para conscientização nacional em torno da importância da presença paterna, ativa e consciente, afetiva e responsável, como forma de contribuir tanto para o fortalecimento deste essencial laço humano, como também uma forma de buscar reduzir estes alarmantes números que retratam realidades difíceis de um grupo enorme de crianças no Brasil.

Dentre as novas ações da AJKB criamos uma nova Diretoria de Paternidade Consciente, com nosso querido Diretor Eduardo Stryjer já mediando rodas de conversas espirais, ainda no formato digital e ofertadas para todo o Brasil. Escolas, comunidades, empresas, organizações interessadas em contribuir para que os pais assumam suas responsabilidades e afetividades podem ajudar entrando em contato e convidando seus pais a esta conversa conosco ([email protected]).

Stryjer está a construir uma nova rede de paternidades conscientes com espaços para trocas de experiências, conversas, aprendizagens diversas e atividades vinculadas ao despertar da sensibilidade e consciência paterna, como forma de valorizar o que há de sagrado no arquétipo masculino.

Após a chegada da vacina para todos, passaremos a oferecer também imersões sobre Paternidade Profunda. As mulheres tampouco estão de fora deste trabalho – convidadas, são parte de um cronograma que visa também trazer repertório e informação aos papais. Psicólogas, Pediatras, Psicanalistas, mães solteiras, afinal de contas, Janusz Korczak foi um exemplo profundo daquilo que é possível um pai oferecer ao mundo e nós, como Associação Janusz Korczak Brasil, buscamos pensar a partir de nossas inspirações, as realidades brasileiras.

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Roda de Conversa da AJKB sobre Paternidade Consciente, mediada por Eduardo Stryjer.

Entramos nesta batalha pois entendemos que toda sociedade é responsável por todas as suas crianças e os números aqui apresentados não são aceitáveis, eticamente. Possuímos assim a ousadia de contribuir para conseguir reduzi-los socialmente drasticamente nos próximos anos. Para isto contamos com você.