22/09/2021

4 questões para nos ajudar a moldar escolas e a sociedade para melhor

Por Faye Simanjuntak e Midria Pereira

Faye é uma jovem construindo lares seguros para crianças na Indonésia. Midria é uma poeta brasileira e slammer tornando sua comunidade mais diversa. Na índia, nossa amiga Garvita está reduzindo o desperdício de água em todo o país, enquanto Aaryani está fomentando consciência sobre saúde mental.

Nossas vidas são diferentes, mas nossas histórias têm muito em comum. Nós encontramos inspiração na escola e nossas comunidades. Educação, para cada uma de nós, foi um catalisador para a mudança que esperávamos fazer no mundo.

Entre nós quatro, nós já passamos mais de duas décadas mobilizando a juventude nos campos de anti-tráfico, saúde mental, acesso à água e acesso à educação. Nós assistimos com entusiasmo o mundo lentamente se ajustar para dar à juventude mais oportunidades para assumirem as rédeas para um futuro melhor.

Faye Simanjuntak

Crédito: Arquivo pessoal de Faye Simanjuntak

De todo modo, existe uma verdade que não podemos negar: a mudança ainda não é suficiente.

Muitos dos lugares nos quais trabalhamos tinham problemas estruturais inerentes com os quais não poderíamos esperar combater, como a autorização sutil da Indonésia para casamentos de menores sob o tribunal religioso. Culturalmente, nós fomos dispensadas e desconsideradas, raramente tendo a oportunidade de falar, muito menos de agir.

Frequentemente, jovens não têm recursos e incentivos para fazer a diferença. Nossas vozes não são apenas ignoradas, mas continuamente rejeitadas. Fazemos campanha há anos apenas para ver poucas mudanças estruturais ou de longo prazo. Cada uma de nós tem suas histórias de ser menosprezadas ou se sentir incapaz de acessar os recursos que precisamos.

Em breve, passaremos mais da metade de nossas vidas dedicadas às causas pelas quais nos preocupamos, e não podemos continuar sem a ajuda de nossas lideranças.

Precisamos dar mais suporte à juventude e criar mais espaços onde todas as pessoas possam contribuir com a mudança.

Precisamos enfatizar unidade e colaboração, encorajando pensamento crítico e resolução de problemas entre pessoas jovens.

Como? Um dos caminhos mais poderosos é a educação – e educação pode vir de contextos formais ou informais. O que aprendemos na escola molda uma visão sobre o mundo. Muitas vezes o primeiro passo na direção da mudança é questionar porque as coisas são como são.

Como procuramos usar a educação para mudar nossas sociedades, aqui estão três perguntas que todas as pessoas podem se fazer:

Que tipo de sociedade nós queremos construir através da educação?

… e como nós chegamos até onde estamos hoje?

Se nós entendemos que a sociedade que nós temos agora e nosso sistema educacional estão interconectados, podemos nos deparar com muitos fatos desconfortáveis.

Por exemplo, podemos encarar a questão da imigração, que tem afetado muitos países. Inúmeras pessoas são agora refugiadas por conta do acirramento de crises humanitárias – sejam sociais, políticas ou de ordem natural. Refugiadas deixando seus países de origem levando suas habilidades e conhecimento consigo (criando uma ”fuga de cérebros”). Para ir mais profundo, muitas das causas que criaram esses problemas estão enraizadas no colonialismo – a história de invasão e roubo que países da África, Ásia e América do Sul atravessaram.

Sistemas educacionais não são necessariamente desenhados para lidar com o paradoxo de que não existem planetas suficientes para continuar adotando a mesma narrativa universal de progresso acima das pessoas que o colonialismo e o capitalismo venderam por tanto tempo. Precisamos de algo diferente.

Crédito da foto: Millena Nascimento

Isso nos traz à segunda questão, considerando que precisamos de forma urgente mudar esse sistema:

Quais são nossas reais necessidades?

Continuamos perpetuando um sistema de educação falido que foca no sucesso como uma realização individual através da vida profissional. Aquela velha e conhecida história – ir para escola, se graduar, ter um emprego estável, se casar, comprar uma casa, comprar um carro, ter filhos, ser eternamente feliz com sua família – e que nunca esteve disponível para todas as pessoas, especialmente quando observamos desigualdades ao redor do mundo.

Qual é o outro caminho que podemos tomar?

Não haverá uma solução universal para consertar a vida de todas as pessoas (porque criar um paradigma de universalidade é parte do problema). Cada comunidade sabe melhor do que ninguém quais são suas necessidades reais, desafios e possíveis soluções para si. As discussões deveriam se basear no empoderamento e na autonomia comunitária. Deveríamos beber de conhecimentos ancestrais. E nós, como juventude temos um grande papel nisso.

Como podemos conectar a educação com a realidade que a juventude enfrenta?

Primeiro, sabemos que a educação é uma ferramental crucial – que pode ajudar a juventude e suas comunidades a observarem seus maiores desafios e encontrar soluções para eles. (Ao mesmo tempo em que ainda consideramos a importância de que o governo faça sua parte também).

Se você está buscando os primeiros passos para encontrar soluções, tire um tempo para refletir. Tente se fazer essas perguntas para encontrar um lugar onde você possa fazer a diferença.

  1. Pense sobre uma comunidade com a qual você se importa: onde você nasceu? Qual o seu bairro? De quais coletividades você faz parte?
  2. Pense sobre os três maiores problemas que tocam essa comunidade
  3. Pense em três possíveis soluções que podem resolver estes problemas
  4. Escolha um desses três problemas
  5. Faça uma lista de recursos com os quais você pode contribuir para essa causa
  6. Construa um plano de engajamento inicial ao redor dessa questão: verifique se já existem iniciativas trabalhando nisso ou chame amigues, família ou vizinhança para começar a agir.

Dentro das escolas, jovens podem ajudar a mudar os sistemas educacionais através de simples debates sobre questões que afetam nossas vidas. Quando jovens meninas estão liderando movimentos feministas, por exemplo, demandando seu direito de andar livremente pelo mundo, no final das contas a mensagem que elas estão mandando é de que elas se entendem como as “donas de seus corpos, vidas e futuros”. O mesmo se aplica para professores e outras organizações comunitárias.

O tipo de futuro que queremos construir é muito mais diverso, potente e plural do que aquele que teremos se permitirmos que o pensamento retrógrado de séculos atrás dite nossos caminhos. Confiar em jovens para liderar esse processo fará toda a diferença.

 

Texto publicado originalmente no canal Medium da Ashoka