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A primeira infância, fase que vai do nascimento aos seis anos de vida, é a janela de maior desenvolvimento do cérebro humano, segundo a ciência. Nesse período, 90% das conexões cerebrais, que podem chegar a um ritmo de 1 milhão por segundo, são estabelecidas. É um momento decisivo para consolidar as bases do aprendizado, da adaptação e da resiliência. No entanto, a maioria da população brasileira não a percebe como a fase mais importante da vida.
A recente pesquisa “Panorama da Primeira Infância: O que o Brasil sabe, vive e pensa sobre os primeiros seis anos de vida” da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal com o Datafolha, confirma essa percepção: apenas 15% dos entrevistados reconhecem a primeira infância como período em que o ser humano mais se desenvolve. O levantamento apontou que 41% da população acredita que o desenvolvimento humano ocorre principalmente após os 18 anos.
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Para compreender o cenário atual, é preciso antes conhecer a história da instituição escolar no país. Esta é a primeira reportagem de uma série que aborda a trajetória da educação infantil no Brasil, questiona a desvalorização do cuidado como tarefa feminina e apresenta pedagogias das diversas realidades culturais e territoriais do Brasil.
A historiadora Katya Braghini, professora de pós-graduação na PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo), lembra que a escola no Brasil nem sempre teve o formato atual. Criada no século 16, sua função inicial era formar cristãos e súditos, e só mais tarde passou a ser entendida como espaço de formação cidadã.
Ela explica que, no início da instrução pública, muitas famílias resistiram em enviar os filhos, pois a permanência na escola significava abrir mão de uma força de trabalho essencial para o sustento do lar.
Essa transição, contudo, não garantiu legitimidade automática. A aceitação da escola foi um longo processo de convencimento público. “Essa instituição, inventada para formar cidadãos, não ganhou o crivo e a legitimidade social de imediato. Houve muitas disputas sociais para que a escola fosse instituída como competente para essa função”, explica a historiadora.
No final do século 19 e início do século 20, a educação infantil ainda tinha um caráter predominantemente assistencialista, voltado às famílias trabalhadoras pobres.
A pesquisadora Isabel Cristina Lima Conceição, no artigo “Breve Histórico da Educação Infantil no Brasil”, explica que nas grandes cidades, como São Paulo, proliferaram creches e asilos destinados a acolher os filhos de mães operárias, enquanto os jardins de infância, inspirados em modelos europeus, eram voltados à infância das classes favorecidas economicamente.
Assim, estabeleceu-se uma divisão: os jardins de infância atendiam em estabelecimentos públicos voltados às elites, com intencionalidade pedagógica, enquanto o atendimento assistencial às crianças pobres ocorria tanto em instituições públicas quanto privadas, muitas vezes ligadas às fábricas.
Um exemplo desse período é a fundação, em 1889, da creche da Companhia de Fiação e Tecidos Corcovado, no Rio de Janeiro, considerada a primeira de que se tem registro no Brasil dedicada aos filhos de operários. Com foco em guarda e assistência, refletia recomendações que circulavam em congressos da época, defendendo a criação de creches junto a indústrias e entidades filantrópicas.
Em São Paulo, a primeira creche registrada foi a Baronesa de Limeira, criada em 1913 para atender filhos de trabalhadores, de modo a garantir a presença da mão de obra feminina nas fábricas. O foco era o cuidado básico, com higiene, alimentação e guarda, sem intencionalidade educacional.
Com o tempo, a escola se consolidou como uma das invenções mais importantes da humanidade. Universalizada ao longo dos séculos, tornou-se espaço central de organização social e de formação dos sujeitos, sendo constantemente disputada por diferentes grupos.
Grande parte da legislação educacional vigente nasceu da mobilização popular, sobretudo de mulheres que reivindicavam vagas para seus filhos. “As mães saíram às ruas para pedir mais escolas e a ampliação do número de vagas nas periferias”, lembra a historiadora Katya Braghini.
Em 1969, foi inaugurada em Guaianases (SP) a primeira creche ligada diretamente ao poder público municipal, vinculada à então Secretaria do Bem-Estar Social. A partir da década de 1970, as reivindicações ganharam força: já não se tratava apenas de conquistar vagas, mas também de exigir qualidade pedagógica. “Eu não quero qualquer lugar para o meu filho, eu quero um lugar de qualidade”, complementa Alessandra Arrigoni, professora da rede municipal de São Paulo e pesquisadora do tema.
Entre 1978 e 1982, esse movimento se consolidou em São Paulo com a criação do Movimento de Luta por Creches, protagonizado por famílias trabalhadoras. Sua atuação foi decisiva para ampliar vagas e defender o reconhecimento das creches como espaços educativos.
Sob a ditadura militar, feministas e organizações sociais ampliaram a mobilização, como mostra o livro “Por que a creche é uma luta das mulheres?”. A maternidade passou a ser entendida como questão social e coletiva, e não apenas responsabilidade individual. Com o lema “O filho não é só da mãe”, o movimento levou suas demandas à Assembleia Constituinte (1987–1988).
O resultado foi histórico: a Constituição de 1988 reconheceu a creche como direito da criança e da família, ampliou a licença-maternidade e instituiu a licença-paternidade, transformando de forma definitiva as relações entre infância, família, Estado e sociedade.
A mobilização segue em torno do direito à escola infantil, entendendo a modalidade como um local que não serve somente como abrigo para as crianças, mas que contribui para sua formação intelectual e cidadã.
O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), de 1990, consolidou o direito à creche, organizado pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB).
Em 1996, a LDB instituiu a educação infantil como uma etapa da educação básica, sendo as creches destinadas às crianças de zero a três anos e a pré-escola como etapa obrigatória para crianças de quatro a seis anos, e atribuiu aos municípios a responsabilidade principal por sua oferta.
Já o PNE (Plano Nacional de Educação), em 2014, traduziu esse direito em metas concretas, como a universalização da pré-escola para crianças de 4 e 5 anos até 2016 e a ampliação da oferta em creches para atender, até 2024, pelo menos 50% das crianças de até 3 anos. No entanto, nenhuma dessas metas foi plenamente cumprida. Em 2024, de acordo com o Censo Escolar, a pré-escola atingiu 94,6% de cobertura, o que ainda deixa cerca de 329 mil crianças fora da escola. Já nas creches, apenas 37,7% das crianças de até 3 anos estão matriculadas.
Diferentemente da LDB, que é um marco permanente, o PNE tem caráter decenal e precisa ser periodicamente revisto para definir novas metas e estratégias. Assim, enquanto a LDB estabelece o marco legal e conceitual, o PNE transforma esse direito em compromissos práticos, com prazos e indicadores que orientam a expansão do acesso e a busca por qualidade na educação infantil.
Após a promulgação da LDB, os municípios tiveram um tempo para se adaptar a essa mudança, e enfrentaram desafios locais com a formação de professores, adequação da estrutura física e a criação de normas pelos Conselhos Municipais de Educação.
Cidades como São Paulo (SP) e Belo Horizonte (MG) já tinham uma rede de educação infantil mais consolidada e criaram sistemas de formação continuada e diretrizes curriculares próprias, servindo de referência para outros municípios.
A pesquisa de Alessandra mostra que a grande virada conceitual e administrativa no município de São Paulo ocorreu em 2002, quando as creches foram transferidas da Secretaria de Assistência Social para a de Educação. A medida, publicada em 2001 após estudos de uma comissão intersecretarial, reforçou a compreensão de que o atendimento de 0 a 3 anos integra a educação básica.
De acordo com o Censo Escolar de 2024, há cerca de 78,1 mil creches em funcionamento no Brasil. A maior parte, 52,8%, funciona por meio de convênios com o poder público, ou seja, são instituições privadas mantidas em parceria com prefeituras, que repassam recursos e supervisionam o atendimento. O restante está diretamente sob responsabilidade da rede pública municipal, que administra as creches de forma integral.
O levantamento mostra que quase 2,3 milhões de crianças de até três anos estão fora da creche por falta de vagas ou unidades próximas. O problema é mais grave entre os bebês de até 1 ano, em que apenas 18,6% são atendidos; entre os mais pobres, 34% ficam de fora por barreiras de acesso.
Esses números evidenciam a necessidade de fortalecer políticas que garantam qualidade e equidade no atendimento. Nesse contexto, em 5 de agosto deste ano, foi instituída a Política Nacional Integrada da Primeira Infância (PNEI), coordenada pelo MEC (Ministério da Educação).
Demanda antiga de diversas organizações ligadas à primeira infância, a nova política visa promover ações focadas no desenvolvimento integral e no pleno exercício dos direitos das crianças de zero a seis anos, intensificando os esforços para assegurar que a atenção à infância seja ampla e inclusiva.
Em linhas gerais, o PNE define as metas para a educação infantil, como ampliar vagas em creches e universalizar a pré-escola, enquanto a PNEI mostra como colocar essas metas em prática de forma integrada, unindo saúde, assistência social, cultura e educação para garantir que todas as crianças de zero a seis anos tenham seus direitos respeitados e possam se desenvolver plenamente.
O que diz a BNCC? |
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A BNCC (Base Nacional Comum Curricular) funciona como uma tradução pedagógica do que já está garantido em leis mais amplas (Constituição, ECA, LDB, PNE e PNEI). Ela dá concretude a esses direitos no dia a dia da sala de aula, organizando o que toda criança brasileira deve vivenciar e aprender na educação infantil.
A BNCC para a Educação Infantil estabelece seis direitos de aprendizagem: conviver, brincar, participar, explorar, expressar e conhecer-se. Esses direitos devem ser o ‘mantra’ a guiar a prática pedagógica. “Quando um professor determina a cor que a criança deve usar, nega o direito de se expressar; quando não oferece materiais diversos, obstrui o direito de explorar, por exemplo”, diz Cizele Ortis, diretora do Instituto Avisa Lá. |
Outra iniciativa centrada na qualidade e equidade, como é o caso do Conaquei (Compromisso Nacional pela Qualidade e Equidade na Educação Infantil), que prevê ações em gestão democrática, avaliação da educação infantil, infraestrutura, formação e valorização docente, entre outros.
Em recente entrevista ao Porvir, Marina Arilha Silva, coordenadora de programas da Fundação Van Leer, destacou que o Brasil “tem um histórico de ser bom formulador de políticas públicas, que são excelentes no papel, mas que, infelizmente, não se concretizam na prática”, o que exige acompanhamento constante de implementação.
No caso do Conaquei, por exemplo, a especialista destaca que trata-se de uma estratégia bem articulada entre os entes federativos, que apoiam tecnicamente o avanço da universalização da educação infantil. “Ao ter como base marcos regulatórios atualizados, como os parâmetros de qualidade e equidade e as diretrizes operacionais nacionais, ele contribui para transformar em prática muitos dos princípios da política nacional”, disse.
Essas políticas mostram que a educação infantil deixou de ser vista apenas como assistência e passou a ser reconhecida pelo seu valor pedagógico, fundamental para o desenvolvimento das crianças como cidadãs e sujeitos de direito.
O Porvir faz parte da mobilização em defesa da primeira infância. O movimento reúne diversas organizações ligadas à causa. Para saber mais acesse: mesdaprimeirainfancia.org.br
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