30/10/2020

No lugar da volta, a reviravolta da escola

Reviravolta da escola“Não há para onde voltar, pois a vida segue e a educação já não é a mesma. Esta é uma oportunidade de recriação da escola”. A frase de Maria Thereza Marcilio, presidente da Avante – Educação e Mobilização Social, resume bem o sentimento compartilhado por educadores, estudantes e gestores sobre os impactos deixados pela pandemia de Covid-19: nunca esteve tão evidente – e propícia – a necessidade de repensar as formas de organização da escola no que diz respeito à gestão, currículo, espaço, metodologia, articulação intersetorial e com o território. 

“Era um modelo que já se mostrava falido há muito tempo. E se a escola de antes da pandemia deixou de existir, o mesmo vale para os profissionais que ali atuavam. Foram tantas mudanças em tão pouco tempo. Os professores, por exemplo, tiveram que se reconfigurar, rever seus papéis. A questão que fica é: quem são esses sujeitos que habitam a escola agora?”, provoca Tamine Cauchioli, uma das coordenadoras da Conane Nacional, acrescentando: “Essa ideia de que a escola parou não é verdadeira. Gestores e professores nunca trabalharam tanto e estiveram disponíveis por outros meios.”

Entre as mudanças de paradigma, talvez a que tenha sido mais comentada foi a incorporação – ainda que, em muitos casos, de maneira improvisada ou desigual – da tecnologia à prática educativa. A pesquisa “Sentimento e percepção dos professores brasileiros nos diferentes estágios do Coronavírus no Brasil”, realizada pelo Instituto Península, corrobora essa tendência. Os dados mostram que se no início da pandemia apenas 57% dos professores enxergavam a tecnologia como muito ou completamente importante no processo de aprendizagem dos alunos, agora, esta percepção é compartilhada por 94% dos docentes. 

Um legado positivo, acredita Heloisa Morel, diretora executiva do Instituto Península. “Porém, é importante ressaltar que muitos professores hoje estão enfrentando problemas com a conectividade, pois nem todos os seus alunos possuem internet ou um computador. É necessário democratizar esse acesso para podermos realmente avançar na questão do ensino híbrido”, lembra.

E tudo indica que este será o caminho. Diante da aprovação pelo Conselho Nacional de Educação (CNE) da resolução que permite que o ensino remoto nas escolas públicas e particulares se estenda até 31 de dezembro de 2021, 78,2% das redes municipais já sinalizaram que irão trabalhar com o formato, como mostrou uma pesquisa realizada pela Confederação Nacional de Municípios (CNM).

“A interação dos alunos com o professor, presencial ou à distância, é essencial para manter o engajamento e fazer com que a aprendizagem aconteça e precisamos compreender que cada modelo exigirá a sua própria dinâmica. Por isso, são fundamentais políticas públicas voltadas à formação e capacitação dos docentes para estes novos desafios”, defende Heloisa.

Para Tamine, esta é, inclusive, uma oportunidade de olhar e aprender com as escolas e organizações inovadoras Brasil afora. “As escolas que já trabalham com metodologias que colocam o aluno no centro do processo se mostraram mais exitosas em contornar os desafios impostos por esta mudança no ambiente de aprendizagem. Vemos que onde deu mais certo adaptar o trabalho para o remoto foi onde a autonomia já era uma valor, onde havia a participação da família e onde a escola já se conectava com sua comunidade.”

Ocupar e recriar a educação

Lançado na sexta-feira (23/10), o manifesto “Ocupar escolas, proteger pessoas, recriar a educação” soma argumentos neste sentido. Elaborado coletivamente por pesquisadores, representantes de entidades científicas da saúde e da educação, sob a coordenação da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (ABRASCO), o documento destaca a importância de fazer da pandemia uma oportunidade de troca de saberes e experiências, de fortalecimento de laços pessoais e sociais, de resistência criativa e de solidariedade com as comunidades escolares.

Também destaca a importância de superar o debate dicotômico e simplista do retornar ou não às aulas presenciais. “Além de não ser possível, não faz sentido retomar este contexto, pois todos os problemas que sempre soubemos que existiam na escola ficaram muito evidentes com a pandemia”, comenta Maria Thereza Marcilio.

Para a educadora, a resposta sobre qual educação será essa que surgirá pós-crise deve ser respondida pelas próprias comunidades escolares que são capazes de, bem informadas, decidir sobre o destino de suas escolas. “Não pode ser uma decisão de cima para baixo. Precisamos avançar na territorialização da educação, isto é, se atentar para as questões locais, onde abrir, como abrir, e com isso fortalecer a gestão democrática de cada um para decidir”, defende. 

Natacha Costa, do Movimento de Inovação na Educação, concorda. “A resposta para esse momento precisa ser intersetorial, porque a escola não dá conta de responder sozinha ao que estamos vivendo. No que tange à educação, precisamos superar de uma vez por todas a noção tecnocrata de que as políticas são criadas nas secretarias e implementadas na escolas. Elas precisam sair das comunidades escolares, honrando sua autonomia na construção das soluções.”  

Para contemplar a intersetorialidade, criar comitês por escola, município ou localidade, com representação da comunidade escolar, da saúde, da educação, da assistência social e também da sociedade do território, aparece como uma boa alternativa.

Outro ponto defendido no manifesto é a relevância de efetivar a escola como espaço de formação cidadã, de uma visão crítica da sociedade, de promoção de uma cultura de paz, de solidariedade e colaboração. Sobre estes pontos, André Lázaro, professor aposentado da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), comenta: “Não há solução sem risco. Em um momento de crise como este, a educação precisa resistir e re-existir. Não estamos entre educação remota e nada. O documento nos convoca a revisitar as pedagogias da insubordinação, porque além da pandemia ainda precisamos lutar contra o negacionismo.”  

Reorganização do espaço escolar

Outro ponto fundamental em relação à reconstrução da escola é o aspecto físico. Arquitetos junto aos coletivos das escolas dos territórios vêm desenvolvendo iniciativas que ressignificam e reorganizam os espaços escolares. Entre elas, está o Manual Técnico para Escolas Saudáveis, produzido pelo Instituto de Arquitetos do Brasil em parceria com a APEOESP, que reúne importantes referências que vão além deste momento específico de pandemia e miram a qualidade dos espaços escolares em qualquer tempo.  

Segundo o material, os espaços escolares pós-pandemia devem atender não somente aos requisitos de conforto ambiental, com espaços bem ventilados e iluminados e com qualidade acústica, mas também ser espaços cujos ambientes externos, tanto dentro quanto além dos muros, possam ser explorados pedagogicamente, propiciando o contato com a natureza, o movimento, o vínculo, o afeto, os encontros e o trabalho coletivo.

“Quando começamos o trabalho, tínhamos a função de falar como as escolas deveriam alterar seus espaços para a abertura considerando a saúde da comunidade que estaria ali. Conforme fomos avançando, vimos que o buraco era mais embaixo porque mesmo antes da pandemia esses espaços não eram saudáveis”, conta Ursula Troncoso, coordenadora do projeto. “Seguindo o cálculo proposto pela OMS, poderiam haver no máximo 20 alunos por sala, o que tornava 93% das turmas inadequadas. Este fato faz cair por terra a ideia de que só porque os alunos estão dentro de uma sala de aula estão aprendendo.” 

Nesta perspectiva, a arquiteta atenta para o potencial de ocupar outros espaços de forma pedagógica. “Para isso precisamos entender currículo de forma mais ampla. Se a gente sai da sala de aula, que outros espaços são de aprendizagem? A pandemia deixou muito claro o papel social da escola e que ela não termina no muro. Tem uma praça na frente da sua escola, então você pode ocupá-la com seus estudantes, por exemplo. Quando a gente abre a escola para o território a gente abre a oportunidade dela ser um centro comunitário e é isso que devemos buscar”, termina.

Conheça a Campanha #Reviravolta da Escola