13/11/2019

Livro mostra como arquitetura da escola favorece a aprendizagem criativa

Como desenvolver um modelo de ambiente de aprendizagem flexível e pronto para o uso de novas tecnologias como pede o ensino do século 21? Foi para essa pergunta que a professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UFAL (Universidade Federal de Alagoas) Thaisa Sampaio Sarmento buscou respostas em sua tese de doutorado, defendida em 2017, e que agora virou um livro voltado para profissionais da educação.

O livro, com versão digital e impressa, “Design de Ambiente Escolar para Aprendizagem Criativa”, escrito por Thaisa e pelo professor Alex Sandro Gomes, um dos orientadores de sua tese, faz parte da série “Professor Criativo – Construindo Cenários de Aprendizagem”, da Pipa Comunicação.

“A ideia do livro veio da possibilidade de tornar essa leitura mais fácil e mais acessível para professores, gestores escolares, secretarias de educação, com o intuito de impactar essas pessoas, para que elas entendam como o ambiente escolar pode favorecer uma aprendizagem criativa, tornando a escola um ambiente mais legal, mais bacana”, explica Thaisa.

A publicação se divide em três partes. A primeira delas aborda a história da arquitetura escolar. Fala sobre como a escola foi modificada ao longo do tempo até chegar aos dias atuais. “As crianças eram, e ainda são em muitas escolas, submetidas às regras de controle. As aulas têm tempo e espaços fixos. Isso transpassa no espaço escolar, quando você vê corredores, janelas e portões com grades, porque a lógica da escola pública brasileira ainda é a lógica do controle. Uma lógica baseada em um ensino muito atrasado, tradicional”, afirma Thaisa.

A professora explica que, para que o espaço mude, é preciso haver uma reforma nos métodos de aprendizagem, com o aluno atuando como corresponsável do seu aprendizado.

“Isso não acontece ainda no Brasil, infelizmente. A gente já vê isso nos Estados Unidos e na Europa, mas no Brasil o aluno ainda é aquela pessoa que fica na sala apenas recebendo conhecimento que o professor passa. O professor ainda é a pessoa central no ensino, quando a gente vê hoje, em outros modelos de ensino, que o estudante é a figura central, não o professor. O espaço escolar segue essa lógica, que deve ter mais de cem anos que é aplicada no Brasil sem haver uma reformulação que realmente considere uma nova abordagem desse espaço escolar.”

A segunda parte do livro fala sobre aspectos físicos e arquitetônicos, como conforto térmico, iluminação, acústica e ergonomia do mobiliário. “Não é apenas ficar mais colorido, mais bonito. Quando a gente vê um ambiente colorido, a gente acha que ele está legal. Precisa tornar o ambiente agradável e preparado tecnologicamente falando, em infraestrutura, em flexibilidade, em possibilidades de acomodação de pessoas diferentes para uma aprendizagem voltada para o século 21”, diz Thaisa.

É aí que entra a importância da preparação da infraestrutura tecnológica da escola. O professor do Centro de Informática da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco) Alex Santos Gomes, coautor do livro, explica que o espaço de aprendizagem precisa estar preparado para o uso da tecnologia, com rede elétrica compatível, Wi-Fi, pontos de acesso e equipamentos, mas o mobiliário deve ser flexível.

Uma aula voltada ao ensino centrado no estudante, de acordo com Alex, pode ter uma parte explicativa. Depois, os alunos podem trabalhar em grupos com o celular. Para isso, a sala precisa ser reconfigurada com ilhas de dez lugares, por exemplo. Pode haver um cantinho para um grupo menor de alunos, que podem querer trabalhar em uma varanda da sala. Ao final, o espaço se reconfigura de novo para uma apresentação dos grupos.

“Hoje alguns professores já usam o celular para fazer pequenas enquetes, usar plataformas, mas, de forma geral, a escola ainda tem a sala de informática. Quando reconhecemos que os conteúdos não têm mais fronteiras, os espaços ainda têm, principalmente no setor público”, diz Alex. Por isso, segundo o professor, é tão importante sensibilizar o gestor público. “As escolas continuam a ser projetadas nos mesmos moldes. Com os mesmos recursos, poderíamos criar escolas que permitissem ao professor uma variedade melhor de dinâmicas e do uso de tecnologia.”

Design participativo

A terceira parte do livro explica como tornar o usuário um participante do projeto, para que se possa modificar e reformar escolas existentes, aproveitando o melhor do que cada projeto já tem, incluindo o que as pessoas gostariam que fosse melhorado, “para que tivesse uma escola mais eficiente, mais acolhedora”, diz Thaisa.

“O design participativo, como ferramenta de projeto antes de entregar uma obra arquitetônica, pode dar elementos para que você tenha resultados mais satisfatórios para os usuários. Para que ele diga: eu queria uma sala maior, eu queria ter cadeiras diferentes, umas mais largas, umas mais altas, umas mais revestidas, eu queria ter a cor tal, eu queria a possibilidade de ter mobiliário para guardar as minhas coisas, eu queria ter um lugar para sentar para fazer a minha refeição. Só você indo a campo e escutando as pessoas que se consegue ter essas informações. Não dá para fazer projeto de ambiente de uso coletivo fechado em um escritório, sem consultar os usuários”, diz Thaisa.

Exemplos de arquitetura

A professora cita dois exemplos de escolas que já têm espaços voltados para a aprendizagem criativa. Um deles é a Escola Técnica Cícero Dias, conhecida como NAVE, no Recife (PE). A escola estadual tem suporte financeiro do programa Oi Futuro, assim como o Colégio Estadual José Leite Lopes, NAVE do Rio de Janeiro (RJ).

“A Oi fez toda a reforma do ambiente escolar, proporcionando ambientes muito mais satisfatórios, agradáveis, contemporâneos, flexíveis em relação às suas possibilidades de utilização. Essa escola de Recife é uma referência para o Nordeste. Minha pesquisa de doutorado foi feita nesta escola, por ela ter essas condições mais específicas em relação ao ensino para o século 21”, conta Thaisa.

O outro exemplo é uma rede de escolas públicas municipais de Santos (SP). Segundo Thaisa, um programa municipal promoveu a reforma de nove escolas. “Os projetos foram feitos pelo escritório AUÁ Arquitetos. Eles fizeram modelos de ambiente escolar, salas de aula totalmente modificadas, no que a gente pode verificar um uso muito mais inteligente e flexível do mobiliário, uso de cores, mobiliário mais dinâmico, muita luz natural, recursos digitais.”

Os dois exemplos, de acordo com a professora, são referências de ambientes contemporâneos voltados para o ensino no século 21, baseado na flexibilidade, no ensino voltado para satisfazer os estudantes e suas necessidades pessoais e sociocognitivas.

“Então já existe no Brasil, em escolas públicas, exemplos muito interessantes de como melhorar o ambiente escolar. Logicamente associado a uma reforma no método de ensino e aprendizagem, para que haja uma preparação das pessoas para usar esses ambientes de modo satisfatório, tirando dele a melhor condição possível.”

Para Thaisa, a mudança essencial é a aplicação da metodologia de aprendizagem centrada no estudante. “Quando isso acontecer do ponto de vista da metodologia, a questão do espaço físico da escola também vai seguir esta mesma lógica. Deixará de ser uma lógica de controle das crianças e jovens e passará a ser uma lógica de favorecimento ao bem-estar do estudante, para que ele esteja em total conforto físico, emocional, psicológico em relação à convivência com outras pessoas, para que a escola seja este espaço de aprendizagem fluida, convidativa, baseada em relações positivas.”

A professora defende que as escolas atuais sejam alteradas. Hoje, os projetos têm salas de aula repetidas, com desenhos iguais, banheiro e um pátio muito simplificado, segundo Thaisa. “A gente tem um ambiente árido. Quando, na verdade, a gente deveria ter um ambiente mais convidativo para que a escola fosse um local para plena aprendizagem.”

Para ela, a primeira coisa a ser retirada são as grades. “Para remover as grades, é preciso que haja uma preparação social, para que a escola seja um ambiente seguro, seja um ambiente agradável, haja um relacionamento positivo, para que a grade não seja mais necessária. A grade é só um exemplo de como um ambiente é restritivo, mas os banheiros, os espaços de convivência têm que ser mais agradáveis. Tem que haver jardim, espaços para atividades esportivas. A gente sabe que não existe na maioria das escolas”, diz Thaisa.

Texto publicado originalmente no site Porvir