19/11/2019

Consciência Negra: 6 filmes para pensar negritude e cinema

O renomado músico de jazz Sun Ra parte para outro planeta, utilizando os acordes impetuosos do ritmo como meio de transporte. No filme Space is the Place (1974), considerado um dos berços do Afrofuturismo, o protagonista deseja construir uma nova civilização, livre do racismo da Terra e repleta de possibilidades abertas pela música.

Filmes como o protagonizado por Sun Ra fazem parte de uma importante leva cinematográfica e audiovisual de narrativas negras diferentes das sempre produzidas em Hollywood; são filmes construídos por diretores e diretoras negras, que contam suas histórias por um viés profundo e múltiplo, longe do reducionismo da violência ou tristeza.

Essa produção, fundada em movimentos icônicos com Blaxpoitation, dos Estados Unidos e Nollywood, na Nigéria, são contra narrativas de celebração que precisam ocupar espaço para além do 20 de novembro, Dia da Consciência Negra.

Como conta a jornalista I’sis De Olveira em matéria do portal Geledés: “o meu objetivo se tornou construir. Construir pessoas que entendem seu lugar no espaço, entendem seu lugar nessa sociedade, que sabem os seus direitos, que vão descobrir que a história delas não se resumem a escravidão e serventia, que fomos reis e rainhas, inventores, matemáticos.”

Portal Aprendiz reuniu uma lista de produções cinematográficas brasileiras e estrangeiras que abordam novas narrativas para a negritude; e que aspiram um novo ar de representatividade e debate nas telas.

Temporada (2018) – André Novais de Oliveira

Juliana é uma agente de saúde que muda de uma cidade pequena para Contagem, uma das grandes cidades de Minas Gerais. Muito tímida e fechada, gradualmente começa a se abrir para novas afetividades enquanto espera que seu marido se junte a ela. Dirigido pelo também mineiro André Novais, o filme retrata as histórias das miudezas e do cotidiano, além de um olhar fresco e necessário sobre afetividades negras.

O que se disseO filme não precisa se amparar em um grande arco dramático que tem de se fechar ao final da projeção. O que importa é o percurso, e Juliana descobre ali, entre ruas tortas e ladeiras, entre xícaras de café e flertes no portão, pequenos grandes agentes de transformação para que, aos trancos e solavancos, ela possa tomar de vez a direção de sua vida – Rafael Carvalho, jornalista. 

Kbela (2015) – Yasmin Thainá 

Kbela é um manifesto contra uma biopolítica opressora, que grande parte das vezes nas mulheres negras se expressa na violência sofrida por conta de seus cabelos crespos ou de outros traços de sua aparência. Fragmentado em pequenas performances, que carregam no silêncio e movimentos não só a dor mas sobretudo a superação e o encontro com a beleza, o curta desvela uma estética que, além de bela, é política.

O que se disseAlém da oxigenação própria de cada sequência, todas constituem e constroem. O resultado é um curta-metragem com duas linhas de força: uma disposta a diagnosticar as dores, traumas e neuroses causadas pelo racismo; outra comprometida em oferecer, por meio da própria obra, uma instância de cura e de fabulação do futuro – Heitor Augusto, crítico de cinema. 

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Moonlight (2017) – Berry Jenkins 

Ganhador do Oscar de Melhor Filme em 2017, Moonlight: Sob a Luz do Luar é a história de três partes da vida de Chiron. O filme acompanha sua infância em Miami às voltas com uma mãe violenta, a descoberta de sua sexualidade na adolescência – e também sua repressão – e o desfecho de um homem que cristalizou-se em algo esperado dele mas com tanto dentro de si além do óbvio.

O que se disseMoonlight: Sob a Luz do Luar traz a pergunta e encontra uma resposta: filmar algo que é do coletivo (uma experiência histórica negra), mas construir com profundidade o que é da ordem do indivíduo sem, contudo, anular o que lhe é maior. Talvez por isso que chegue em algo mágico: Chiron é único – sai-se do filme tendo na memória cada detalhe que o torna específico –, ao mesmo tempo que Chiron não é o primeiro e não será o último. Chiron somos nós, meninos negros gays que se tornam homens negros gays – Heitor Augusto, crítico de cinema. 

Dirty Computer (2019) – Janelle Monáe

A cantora Janelle Monáe sempre usou sua paixão por ficção científica – é fã de filmes como Metrópolis, Blade Runner e Star Wars – como plataforma para sua música. Quando lançou o álbum Dirty Computer, também lançou o curta homônimo, onde ela interpreta uma androide em uma distopia de controle governamental. Em uma miríade de cores e referências à cultura sci-fi, Janelle celebra a beleza de ser quem se é e amar quem se quer.

O que se disseO mistério da identidade e da fluidez da realidade são geralmente obsessões gêmeas no gênero sci-fi: Quem somos? O que experimentamos é real? Filmes como Total Recall e Matrix brincaram com esses temas, mas Dirty Computer mergulha neles com uma agudeza raramente sentida no gênero. Enquanto as memórias de Jane são apagadas, ela começa a perder partes essenciais de si própria. E não as cenas dela e de Zen (N.T: a namorada no filme) passeando ou se curtindo na praia, as letras de Dirty Computer são manifestos pessoais sobre aceitar a si próprio – Tim Grieson, jornalista. 

Filhas do Pó (1991) – Julie Dash

Primeiro filme lançado comercialmente por uma diretora negra nos Estados Unidos, Filhas do Pó não fez muito sucesso em sua época: suas múltiplas narradoras, a experimentação com imagem e música e um jeito etéreo de contar a história destoava da maioria das outras produções hollywoodianas. Hoje, se reconhece conta uma história singular sobre uma família de mulheres negras na Georgia (EUA), que, por viverem em um lugar isolado, conseguiram manter as tradições e belezas da cultura Iorubá de seus antepassados.

O que se disse: Filhas do Pó, apesar de reconhecer toda dor, em sua maior parte ressoa um espírito independente e uma ebulição onírica, bem personificada nas brincadeiras na praia, na refeição comunitária de dar água na boca, e nos tambores borbulhantes da trilha sonora – Josh Larsen, crítico de cinema. 

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Línguas Desatadas (1989) – Marlon Riggs

O cineasta, ativista LGBTQ+ e poeta Marlon Riggs dirigiu e performou em Línguas Desatadas, um documentário manifesto e performance sobre a força revolucionária que é um homem negro gay amar a si próprio e amar outro. Recitando poesia, sobrepondo imagens de militância com a construção do desejo e da ternura, Línguas Desatadas fala de um corpo negro que luta por encontrar aceitação e afeto e muito vezes não consegue dentro de sua própria militância.

O que se disse: Fala-se muito no filme, mas sente-se muito do lado de cá, de quem assiste. O registro racional-documental é seguido da fala poética-afetiva, intercalado com a performance do corpo, novamente atravessado pelas vozes externas de agressão, respondido com a ternura de uma performance musical e complementado pela filmagem documental de um protesto. A multiplicidade das origens dos campos estéticos aos quais essas vozes discursivas pertencem traz muita riqueza para a experiência – Heitor Augusto, crítico de cinema. 

*Texto de Cecília Garcia, publicado originalmente no Portal Aprendiz, com o título “Consciência Negra: 6 filmes para pensar negritude, afetividade e cinema”