Cidade de Tremembé (SP) implementa princípios da educação integral no currículo da rede municipal

Por Centro de Referências em Educação Integral

Em Tremembé, interior de São Paulo, membros da secretaria municipal de Educação, gestores e coordenadores pedagógicos das 17 escolas da rede percorreram as ruas da cidade observando as praças, comércios, a calçada, os transeuntes e tudo que havia ao redor dos espaços escolares. O objetivo era compreender o território e a realidade de seus estudantes para então entender os alunos e tornar a escola um espaço com sentido.

Imagem ilustra reconstrução do currículo escolar de Tremembé (SP)

A atividade fez parte do processo de implementação dos princípios da educação integral no currículo da rede municipal, em curso desde 2018 por meio do projeto Educação Integral na Prática, do Centro de Referências em Educação Integral.

Cristiana Berthoud, secretária de Educação de Tremembé, conta que buscou a iniciativa porque viu na implementação na Base Nacional Comum Curricular (BNCC) a oportunidade de revisar o currículo da rede. “Com a BNCC, os princípios da educação integral precisam ser incorporados, sobretudo, o de que educar não é só ensinar, mas formar um sujeito”, diz.

 

O processo teve início em março do ano passado. Uma das formadoras é Helena Freire, que convidou a secretaria municipal de Educação, gestores e coordenadores pedagógicos da rede para estudar os principais conceitos da educação integral, como o pleno desenvolvimento dos alunos, a gestão democrática, a atenção ao território, e a importância da participação das famílias e da comunidade.

“Também pensamos juntos como as 10 competências da BNCC poderiam ser norteadoras do nosso trabalho e como esses conteúdos devem ser trabalhados de maneira integrada”, conta.

Ao lado dela, a pesquisadora e curriculista Julia Andrade foi dando corpo a um referencial teórico e prático para aprofundar a escrita da matriz curricular.

Ela explica que o processo se divide em dois momentos: um nível mais ligado à gestão escolar, organização curricular e dos tempos, espaços e propostas de conteúdos de aprendizagem; e outro ligado às práticas pedagógicas e ao trabalho do professor em sala.

“Tem que ser um processo participativo, e não algo centralizado e pronto, que a gente só implementa. Só assim faz sentido para todos”, diz Julia.

Educadores são apresentados à mandala do sujeito Crédito: Victor Narezi

Educadores são apresentados à mandala do sujeito | Crédito: Victor Narezi

Trabalho articulado

A implementação do programa Educação Integral na Prática iniciou-se com a discussão conceitual do que é o desenvolvimento integral dos estudantes, desde as competências gerais da BNCC até o território.

Os envolvidos leram textos, assistiram vídeos e refletiram sobre quais eram as práticas desenvolvidas já alinhadas com a educação integral e quais eram aquelas que desejavam inserir ou modificar. A partir deste levantamento, sistematizaram as que poderiam se tornar referência para todas as escolas.

Cada encontro gerou ainda o planejamento de uma atividade para desenvolverem em suas escolas com o intuito de também formar os docentes.

“O fato dos professores saírem da escola e percorreram o entorno fez com que eles olhassem para como é a vida dos alunos”, diz a coordenadora pedagógica Simone Souza.

Uma atividade foi a caminhada exploratória pelos bairros, que surgiu após Helena perceber que a maioria dos gestores e professores não eram moradores de Tremembé, mas de cidades vizinhas. “Eles não conheciam muito da realidade dos alunos, nem faziam relação entre território e objetivos de aprendizagem, por isso organizamos essa saída”, conta.

Nela, os educadores foram estimulados a buscar a história do território e fazer conexões com a construção do conhecimento. Além disso, registraram os recursos do território e da comunidade com potencial educativo. Posteriormente, uma discussão foi feita sobre como trabalhar o território em sala de aula e como se mobilizar para mapear outras oportunidades educativas.

Simone Souza, coordenadora pedagógica de uma das escolas da rede, participou da caminhada e organizou a mesma atividade com seus professores. “O fato de eles saírem da escola e percorreram o entorno fez com que olhassem para como é a vida desses alunos por meio das ruas, das casas e das pessoas. Isso ajudou a compreender mais esse estudante e a entender a relação entre escola e comunidade” diz.

Educadores percorrem o entorno das escolas para conhecer mais sobre a realidade dos alunos Crédito: Victor Narezi/SME

Educadores percorrem o entorno das escolas para conhecer mais sobre a realidade dos alunos | Crédito: Victor Narezi/SME

Além do cuidado para que a comunidade escolar seja a autora das transformações e com a integração entre território, comunidade, família e escola, a secretária Cristiana destaca a importância do tempo destinado para esta revisão curricular.

Em Tremembé, o programa Educação Integral na Prática só deve ser concluído no final de 2019, completando dois anos de implementação. “Não se trata só de mudar o currículo, mas de realmente mudar o paradigma, porque todos nós fomos formados em outra perspectiva de escola. Então o processo tem que ser cuidadoso. A escola não faz nada sozinha porque educar se faz com todos“”, explica.