Por meio do teatro, projeto aborda de forma inovadora africanidade e Lei 10.639

Africanidade, arte e educação. É este o tripé conceitual que sustenta o teatro do grupo MovaNos, criado em 2015 na periferia do Rio de Janeiro para, entre outros objetivos, fazer valer a Lei 10.639/2003, que prevê o ensino de História e Cultura Afro-Brasileira em todas as escolas do País. 

“O MovaNos começou como um grupo de pesquisa que, por conta da relevância do tema no contexto da vida dos participantes, tinha como foco a questão sociorracial. Destas trocas, veio a ideia de pensar algo maior”, conta Hudson Batista, idealizador do projeto ao lado de Lu Fortunato. 

O projeto então passou pela incubação de 1 ano no programa Pense Grande, iniciativa da Fundação Telefônica Vivo que apoia jovens empreendedores, para que os sócios pudessem entender os caminhos de como empreender com cultura e estruturar melhor sua ação. Dali, saíram com o objetivo de visitar escolas levando peças e oficinas teatrais. “Começamos visitando escolas parceiras e, depois, os próprios diretores e educadores iam indicando para outros nosso trabalho”. 

A experiência colaborou também com insumos para a criação da metodologia “Jornada teatro-corpo”, que convoca autoconhecimento, africanidade e questionamento social a partir das técnicas de artes cênicas. “A metodologia traz referências africanas, imagens, vídeos e outros recursos para abordar a Lei 10.639 de uma forma inovadora, propondo uma aprendizagem inteiramente prática. A lei já tem mais de dez anos e muitos educadores ainda não sabem como abordá-la. Acham que é só falar de escravos e este termo está errado: eram pessoas escravizadas, e não escravos”, aponta Hudson.

Pedagogo de formação, Hudson acompanhou de perto estes entraves em suas vivências pelas escolas onde ministrou oficinas e afins. “No chão da escola, percebemos um racismo estrutural. Isso fica claro na intolerância em relação às religiões de matriz africana. Muitos gestores vêm reclamar que estamos falando de uma religião em detrimento de outras, mas não é isso. Quando a gente fala da religiosidade africana é a partir da perspectiva cultural, dos seus saberes e tradições”, explica.

africanidade

Outra frente de atuação do projeto está na ampliação do repertório cultural dos estudantes das escolas visitadas por meio de idas ao teatro. “A gente sabe que nem todo mundo ali vai sentir vontade de ser ator e não é esse nosso objetivo, mas trazer a sensibilidade, o debate, é ver o que o teatro está trazendo para discussão e assim refletir sobre seu papel social.”

Os desafios, no entanto, não são poucos. “A gente vê o quanto é difícil empreender com cultura no Brasil. Ano passado, construímos a Casa MovaNos para reunir os jovens que passavam pela nossa formação, oferecendo cursos de teatro, música e dança. Mas tivemos diversos problemas e tivemos que sair. Hoje, estamos funcionando em um galpão como espaço provisório”, conta Hudson. 

Apesar destes percalços, Hudson comemora as conquistas que o projeto vem tendo até aqui. “O teatro e as artes, em geral, são abordagens educacionais potentes. Além da africanidade, o que o MovaNos traz é esse ponto de vista de que não se aprende só com o cognitivo, mas também com o corpo”, finaliza.

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