01/12/2020

Os sinais do fim de uma era

Por José Pacheco

Encruzilhada do Sul, 26 de novembro de 2040

Até cerca dos anos trinta, o vosso avô colecionava recortes de jornal, que davam conta de uma crise social sem precedentes. Eram evidentes os sinais do fim de uma era. As notícias do novembro de há vinte anos eram como que o anúncio do fim do século XX, pois desocultavam os limites do desenvolvimento tecnológico concebido nesse século.

No hemisfério sul, no dia do equinócio de outono, o Sol iria nascer à frente da constelação de Aquário. E os sistemas político, econômico e educacional teriam novos contornos. Na introdução a um espetáculo da Bethânia, se apelava a novas ideias, algo que precisava ser refeito. A mudança poderia ser mínima, ou radical, mas necessária, imperativa, diária. Mudar, para a Bethânia era como respirar, viver. E ela dizia que “os erros precisavam ser… nobres”.

O Brasil vivia um período de negacionismo histórico e científico. Indiferentes aos trágicos efeitos de uma pandemia, torcidas se aglomeravam no exterior dos estádios de futebol. Havia uma sensação do “liberou geral”, relatos de multidões reunidas em churrascos, casamentos, escolas, praias. O humano estava em crise. Por cada casamento, uma dúzia de mortes. As aglomerações refletiam egoísmo, desprezo pela vida.

A irresponsabilidade dava origem à segunda onda da pandemia e acendia um alerta médico para festas de fim de ano. Os meus recortes de jornal dão notícia desse descalabro. O Brasil voltava a registrar aumento nas taxas de transmissão do coronavírus, continuava no podium de uma tragédia anunciada: era o segundo do mundo com maior número de mortes na pandemia do coronavírus, apenas atrás dos Estados Unidos. E a OMS declarava que a “opção mais segura” seria renunciar às festas de Natal e Ano Novo.

A Internet era pródiga em notificar o desperdício. Eu não queira acreditar, mas era verdade: próximos da validade e nunca distribuídos para a rede pública de saúde, havia mais exames RT-PCR em depósito do que tudo o que fora utilizado pelo SUS desde o início da pandemia. O Governo federal poderia ter de jogar fora quase sete milhões de testes de covid-19.

Estávamos no novembro dos idos e vinte. Vivíamos uma situação de dinheiro público mal gasto e da via sacra das pessoas sem dinheiro para o pão. O desperdício não era apenas material, era um desperdício de vidas, sobretudo de vidas negras.

Mulheres negras tinham muito maior risco de serem assassinadas do que mulheres brancas. E a desigualdade racial começava no útero, como dizia a Lélia: “A gente não nasce negro, a gente se torna negro”.

Ser pessoa negra era uma conquista árdua. O racismo estrutural tirava, em média, dois anos de aprendizagem às crianças pretas, as mais reativas à poluição mental e moral operada por um hegemônico modelo educacional. Como observava a Natália, “o racismo nos cerca como poluição”.

Eram inúmeras as denúncias diárias, devido a ofensas em razão da cor da pele, crime caracterizado como injúria racial. E um recorte de um jornal do “Dia da Consciência Negra” dava notícia de que, na véspera, um homem negro fora espancado até à morte por seguranças de um supermercado, enquanto uma funcionária filmava a ação. E ainda havia quem afirmasse não haver racismo no Brasil.

Nas redes sociais circulava o comentário de um conhecido ator negro:

“O dia em que pararem de pensar em consciência negra, branca, ou amarela e começarem a rachar cabeça de racista com marretada, aí, o racismo acaba”.

Bem radical era o Morgan, mas violência não deveria ser combatida com violência. Se alguma “marretada” tivesse que ser dada num racista, ela seria… educacional.