12/11/2020

O ano de todos os absurdos

Por José Pacheco

Vespasiano, 7 de novembro de 2040

2020 foi o ano de todos os absurdos. As primeiras páginas dos jornais disso nos davam conta. No Brasil da Covid e das eleições grassava a corrupção. Mais de 10 mil políticos com patrimônio superior a 300 mil reais tinham recebido auxílio emergencial. Corajosamente, estações de televisão norte-americanas interromperam a transmissão do discurso de um candidato, por ele ter emitido acusações falsas. Numa aula online, falando sobre violência sexual, uma professora culpava mulheres em casos de estupro. 

Face a uma nova vaga de Covid, o parlamento português aprovou um novo “estado de emergência”. Esse estado de emergência se prolongaria “até ao final da pandemia”, nas palavras do primeiro-ministro. Porém, os locais das maiores aglomerações continuavam abertos. E a escola era um desses locais.

Levianamente, um administrador escolar afirmava não haver registro de casos de transmissão do coronavírus nas salas de aula”. Dito no mesmo dia em que o André me comunicava que o sistema de saúde o mandara para casa:

“Não posso mesmo sair. Se tenho Covid, eu não sei. Já sabia que haveria sempre esse risco. Agora é esperar e ver…”.

O diretor da escola do André fora contagiado. Mas, como se a escola não tivesse qualquer responsabilidade, nela se dizia que a origem do contágio era… a casa dos alunos. 

Óbvio! Mas, se a maioria dos alunos era assintomática, por que razão a escola havia cumprido a ordem de um ministério irresponsável?

Perante estes absurdos, eu buscava serenidade nas metáforas contidas nas cartinhas, que vos enviei no início do século: 

“Nos anos que se seguiram ao teu nascimento, os teus pais não tinham poiso certo, viviam a incerteza da “colocação”. “Colocação” era o final feliz de uma angustiada espera. Dava aos teus pais a certeza de que, pelo menos durante um ano, poderiam fazer o que gostavam de fazer: ensinar e aprender numa escola como aquela onde vais viver alguns anos da tua vida. E também nessa diária aventura de ensinar e aprender que os teus pais amealhavam o seu sustento, aceitando a sina de, ano após ano, levarem a casa às costas para onde o acaso do “concurso” os atirava. 

“Concurso” era um jogo de acasos, que os professores eram obrigados a jogar, naquele tempo. O “concurso” era impiedoso e, no final de cada ano letivo, impunha a violência da separação àqueles que se começavam a conhecer e a compreender. Era cego, pouco se importava com os afetos e nada entendia de criar laços. Afastados daqueles que aprenderam a amar, os teus pais mudavam de casa, levando o teu berço para longe das paragens habitadas pelos teus avós.”

Nessas cartinhas, metaforizava desumanas regras, descrevia a via-sacra dos professores em início de carreira. Explicava aos meus netos que, de tanto padecer maus-tratos, os professores desistiam de resistir. E, quando conseguiam uma “colocação” definitiva, já se tinham transformado em “servidores cumpridores de ordens superiores”. A indignação se diluía no lamaçal do “sistema”. 

Num dia desse novembro dos idos de vinte, na profusão de e-mails recebidos, havia uma mensagem de resignação. Não a tornei pública, para proteger a remetente. Só, agora, decorridos vinte anos, revelo o início e o final da carta recebida de uma grande (e desistente) amiga:

“Querido amigo José, queria dizer-te que estou e estarei contigo, ainda que ao longe. Apenas e só porque partilho da utopia e o bastante não me basta (…) peço-te que não respondas a esta mensagem, por favor. Abraço largo (Ainda guardo o livro que queria dar-te).”

Com mágoa, respeitei o seu pedido. Não respondi.