09/06/2020

Educação das pessoas e dos territórios: o poder transformador de um novo olhar

Por Helena Singer

O último dia 29 de maio ficará marcado pela triste coincidência do falecimento de duas pessoas que fizeram colaboração fundamental para a transformação da educação brasileira, Gilberto Dimenstein e Rubens Gomes.

Mas, Gilberto e Rubens guardam muito mais em comum do que a data de partida. Devemos a ambos muitas das referências e tecnologias sociais construídas nas últimas duas décadas para a efetiva conexão entre educação e comunidade, entre o desenvolvimento das pessoas e dos territórios. Ideias e práticas criadas por dois outsiders da pedagogia.

O jornalista Gilberto Dimenstein iniciou sua trajetória no campo da educação ao criar, em São Paulo, uma iniciativa que reunia estudantes de escolas públicas e privadas para aprender com jornalistas o que em 1997 era o mais avançado em comunicação – fazer homepages. No caso, estes jovens faziam as homepages de organizações que começavam a solidificar a sociedade civil na democracia brasileira, reconquistada havia menos de uma década. Na sequência, estes jovens passaram a produzir os conteúdos do site Aprendiz, além de outros veículos de comunicação da mídia impressa, da recém-chegada internet, de rádio e TV.

Os outros jornalistas, arquitetos e educadores que vieram somar à iniciativa de Gilberto acabaram por criar a Cidade Escola Aprendiz, uma iniciativa de educação pela comunicação tendo como eixo a cidadania. O Aprendiz, como ficou conhecido, consolidou-se como como uma usina de ideias e projetos, que incluíam capacitações nas novas tecnologias digitais oferecidas por adolescentes a idosos, oficinas em arte-educação que culminavam em intervenções coletivas em espaços públicos, parcerias com organizações diversas que ampliavam as oportunidades educativas para crianças e jovens do bairro. O bairro em que tudo isso se criou foi a Vila Madalena, mas logo as iniciativas se espalharam por todos os lugares da cidade em que havia escolas e comunidades interessadas em reocupar e ressignificar seus muros, ruas e vielas e engajar as famílias em ações coletivas lideradas pelas crianças e jovens.

O efetivo aprendizado garantido pela estrutura baseada em projetos, o ambiente que favorecia a ação coletiva, a participação das crianças e adolescentes na elaboração das regras, no planejamento das atividades e na mediação dos conflitos, a perspectiva transversal do conhecimento e o poder catalisador da organização tornaram aquelas experiências iniciadas na Vila Madalena grande referência para a articulação entre escola e comunidade. As diferentes estratégias desenvolvidas pela organização consolidaram a tecnologia social do Bairro-escola, um sistema de corresponsabilidade entre escolas, famílias e comunidades com foco na garantia de condições para o desenvolvimento integral. Assim, o Bairro-escola como tecnologia e a Cidade Escola Aprendiz como organização consolidaram-se como grandes referências para as escolas e comunidades engajadas com a educação capaz de transformar vidas e territórios.

Do outro lado do país, o luthier e músico Rubens Gomes iniciava sua trajetória na educação de adolescentes no mesmo ano em que Gilberto formou o Aprendiz. Em Manaus, Rubens criava uma escola de lutheria que ofereceria formação gratuita aos seus jovens vizinhos, os moradores do bairro Zumbi dos Palmares.  Com base no relacionamento com seus jovens aprendizes, a Oficina Escola de Lutheria da Amazônia (Oela) entendeu que poderia ampliar o escopo das atividades desenvolvidas para além da produção de instrumentos musicais com uso de madeiras amazônicas manejadas e certificadas, atividade que já integrava formação profissional, artística e ambiental com geração de renda. Ampliou, então, as formações oferecidas aos jovens, incluindo música, arte, esporte, educação ambiental e qualificação profissional em diversas áreas e passou a oferecer também atendimento psicossocial, visando o fortalecimento dos vínculos familiares e comunitários.

Além das atividades em Manaus, a Oela passou a orientar o manejo comunitário da extração de madeira em Boa Vista do Ramos. O caráter inovador de seu projeto reside exatamente na interligação entre as ações: a geração de renda depende da formação e apoio ao novo profissional e da formação em manejo florestal dos ribeirinhos. A incidência sobre políticas públicas orienta o conjunto das ações. Símbolo desta integração foi o Barco Educador, que navegava promovendo cursos de agente florestal comunitário, apto a fazer o inventário das árvores, registrando sua geolocalização e suas características.

As tecnologias sociais desenvolvidas pela Oela voltam-se para o uso sustentável dos recursos naturais que não se dissociam de uma perspectiva educacional inovadora, integral e transformadora. Mais ainda, aliam formação profissional qualificada com a incidência sobre as políticas sociais capazes de alterar substancialmente e em escala abrangente as condições de vida das crianças e adolescentes, e com educação ambiental, estabelecendo conexões deliberadas entre o trabalho com jovens na cidade e com comunidades da floresta.

Gilberto e Rubens contribuíram para a reinvenção da educação ao convergir seus olhares, experiências e ideais construídos nos campos da comunicação e da arte para o desenvolvimento dos jovens, e compreender que precisariam integrar os outros agentes do território em seus projetos. Deixarão saudades e um grande legado.

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