23/04/2020

Covid-19: Nada será como antes, por Helena Singer

Já faz algum tempo que sentimos a profunda conexão entre as urgências, potencialidades e destinos das diversas comunidades, povos e nações, a interdependência de todos os sistemas vivos do planeta. As revoluções tecnológicas da microinformática, da inteligência artificial e da engenharia genética afetam todas as dimensões de nossa vida. A pandemia provocada pelo Coronavírus, o consequente distanciamento físico imposto pela maior parte dos países a bilhões de pessoas e a corrida mundial pelos testes, vacinas e suprimentos hospitalares só evidenciam dramaticamente esta aceleração, interconexão e multidimensionalidade.

Sabíamos, sentíamos e nos afetávamos, mas muitos, talvez até a maioria, negavam-se a reconhecer essa nova realidade, transformar seus modos de vida, assumir sua potência e responsabilidade pela construção de um mundo melhor. Esta negação em alguns grupos sociais se manifesta na busca insana por fazer o tempo voltar atrás, na tentativa violenta de reprimir as manifestações do novo. Em outros, a negação se manifesta no sentimento de impotência, na recusa em perceber que a revolução tecnológica também amplia dramaticamente a capacidade de cada um de nós produzir o novo mundo.

Esse sentimento de negação e recusa continua presente nestes dias em que a maior parte da população mundial se trancou em suas casas. Manifesta-se quando projetamos a volta à vida normal, quando vivemos o presente como se fosse um momento passageiro, um momento em suspenso.

Não, a vida não voltará a ser como antes porque ela nunca volta, a história não retrocede, o tempo nunca fica em suspenso. O que importa agora é saber que o depois poderá ser o mundo de acirrada desigualdade, degradação socioambiental e totalitarismo de base racista e machista, caso vença o medo e a maioria se mantenha na imobilidade. Ou poderá ser o mundo em que assumimos nossa parte na construção do bem comum, caso vença a empatia, a solidariedade.

É por isso que o momento atual, o do distanciamento físico, é o da urgência. Não é um tempo para nos recolhermos, nos isolarmos, para esquecermos a política. Há quem diga que temos que reconhecer o profundo impacto emocional da pandemia em cada um de nós e nos concentrarmos no nosso bem-estar. Sem dúvida, cuidar do nosso bem-estar é fundamental, tanto quanto sempre foi e talvez antes não nos déssemos conta disso. Mas nosso bem-estar, nosso autocuidado, não é dissociado do bem-estar do outro, do cuidar do outro, do cuidar do planeta. Quem se dedica a mudar sua comunidade, seu território, seu país, seu mundo conhece o efeito psicoprofilático dessa atitude.

Talvez essa fase marcada pela pandemia seja aquela em que o mundo que desaba, aquele marcado pelas hierarquias, burocracias, centralizações, departamentos, fronteiras e simplificações finalmente escute o que dizem os que há bastante tempo já estão engajados na construção do outro mundo possível. Escute os que reconhecem a complexidade dos problemas atuais não para se conformar com a impotência, mas para criar estratégias, plataformas e sistemas de colaboração que possibilitem a construção do bem comum.

O caso da educação

Na educação, o isolamento físico impede o funcionamento dos prédios escolares e com eles, as listas de chamada, as provas-sem-olhar-para-a-carteira-do-colega, as lousas carregadas de conteúdos, os cadernos verificados pelos professores, os ônibus escolares, as aulas presenciais, os corpos sentados nas carteiras enfileiradas.

Os modos como os recursos digitais entraram na educação formal possibilitam a continuidade de alguns dispositivos burocráticos, disciplinares e simplificadores: aulas expositivas por vídeo, sistemas online de registro de presença, notas, diários de classe.

Nada disso, porém, se refere realmente a educação. Trata-se de disciplinarização dos corpos e de instrução, que são as partes hiperdimensionadas do sistema escolar. Os debates que se iniciaram em reação às propostas feitas pelas redes de ensino para o período do distanciamento físico apenas revelam os limites claros desse sistema e o predomínio dos aspectos burocráticos e gerenciais sobre os pedagógicos.

A revolução tecnológica alterou profundamente o modo como nos relacionamos com o conhecimento, especialmente entre as crianças, adolescentes e jovens. As novas gerações não só acessam como produzem conhecimento constantemente nas muitas e diversas redes sociais e plataformas que possibilitam o compartilhamento e a colaboração entre pessoas das diversas partes do mundo. Toda a dimensão instrucional do sistema escolar já deveria ter sido profundamente alterada neste novo contexto. Como isso não aconteceu, a escola perde cada vez mais sentido e relevância para seus profissionais, estudantes, famílias e comunidades. É espantoso que até hoje predominem visões sobre o “ensino à distância” semelhantes às críticas que se faziam aos cursos por correspondência do século passado. Que as diretrizes sobre dias letivos, calendário escolar, carga horária se mantenham inalteradas.

Também espanta o fato de parte considerável da população brasileira ainda não acessar a rede mundial, seja porque não tem conexão banda larga, aparelho celular, computador ou até mesmo condições mínimas de espaço e conforto para uma atividade online em casa. Resultado da insustentável desigualdade brasileira. Que os setores sociais mobilizados pela educação de qualidade ainda não tenham priorizado este aspecto é reflexo da dificuldade de lidar com as mudanças aceleradas que vivemos. Muitas vezes se prioriza a demanda por transporte escolar, mesmo quando isso significa submeter as crianças a longas e arriscadas jornadas diárias para chegar à escola. No nível superior, há faculdades com turmas que funcionam de madrugada. Na Educação de Jovens e Adultos, os atrasos provocados pelo deslocamento entre trabalho e escola constituem grande causa da evasão escolar. Argumenta-se que nada substitui o contato físico entre professor e estudante na sala de aula. Mesmo que muitos professores sequer saibam os nomes de seus alunos.

A educação se dá na relação, na construção dos valores, no acompanhamento atento, qualificado e cuidadoso do desenvolvimento humano, nas conexões construídas, nas experiências compartilhadas. Este aspecto fundamental da educação, no qual o professor ou educador é insubstituível, é o que fica silenciado quando a instrução domina os debates.

Mas, há muitos projetos educativos dentro e fora das escolas que se orientam por essa visão. Educadores em diversas partes do Brasil e do mundo que há tempos se dedicam ao desenvolvimento de projetos que se estruturam sobre outras bases: da gestão participativa que possibilita o desenvolvimento dos valores e o aprendizado das práticas democráticas, da visão inclusiva que não deixa ninguém de fora do processo qualificado de aprendizagem, das conexões locais que reconhecem e valorizam os saberes e as experiências das famílias e comunidades, das metodologias que possibilitam que o currículo se construa a partir dos interesses e das potências dos estudantes e das necessidades locais.

Embora o contato físico seja fundamental para estes projetos se desenvolverem plenamente, muito pode ser feito fora dos prédios escolares. Debates, compartilhamento de experiências, visões e informações, pesquisas, acompanhamento pessoal da aprendizagem, orientação, conversas envolvendo as famílias.

O momento agora é de ouvir estes educadores, escolas e projetos. Aprender com eles como se dão os processos pedagógicos nestas outras bases, como é mundo que eles constroem diariamente com seus estudantes e comunidades. É também o momento de os educadores ouvirem os estudantes. Saber o que eles tanto fazem nas redes sociais, no mundo virtual, o que já sabem, o que os interessa.

Chegou o momento de todos nós ouvirmos os jovens que lideram processos fundamentais para a construção do mundo mais justo, solidário e democrático. As muitas Grethas espalhadas pelo Brasil, que percebem a conexão entre todos os seres, se sensibilizam com as diversas questões sociais, engajam outros jovens e adultos em iniciativas solidárias, que usam as tecnologias para promover o bem comum. O mundo pós-coronavírus poderá ser substancialmente melhor se nos posicionarmos em relação à urgência desta transformação.

*Texto publicado originalmente no Centro de Referências em Educação Integral