Resistência pauta lançamento do livro “Criatividade: mudar a educação, transformar o mundo” do Escolas Transformadoras

Criatividade é resistência. Em linhas gerais, é assim que pode ser traduzido o teor da conversa que marcou o lançamento do novo livro digital do programa Escolas Transformadoras: “Criatividade: mudar a educação, transformar o mundo“.

Lançada nesta quinta-feira, dia 06 de junho, no CIEJA Campo Limpo, em São Paulo (SP), a obra escrita a muitas mãos – mais de 40 autores – apresenta a criatividade como um caminho para a solução dos desafios sociais e educacionais no Brasil. Para tanto, a publicação escrita por estudantes, professores, gestores de escola, pesquisadores, profissionais do terceiro setor e professores universitários reúne artigos que fomentam diálogos e trocas sobre diversas experiências e olhares sobre o tema.

Uma das autoras, a historiadora Priscila Dias, professora das redes municipal e estadual de São Paulo, esteve presente no evento de lançamento e dedicou sua fala à necessidade de refletir sobre o próprio conceito de criatividade. Isto porque, para a educadora, a palavra ainda é usada de forma pouco cuidadosa.

“Se não tem giz na escola, escutamos “seja criativo”, se não tem professor, “seja criativo”. A verdade é que, para nós educadores, a criatividade é muitas vezes traduzida como um grande “se vira”. Só que também dentro da ausência, há uma potência muito grande, de resistência. De re-existir, de re-elaborar essas realidades”, colocou. “Enquanto mulher negra e neste atual momento do Brasil, penso muito nisso. Na criatividade como resistência de um povo fosse na hora de cortar a barra da saia para fazer uma boneca, fosse na hora de reinventar nossos deuses que eram proibidos”, acrescentou.

Diego Elias, diretor do CIEJA Campo Limpo, por sua vez, destacou a importância de pensar outras escolas possíveis para que ocorra a diversidade de pensamento, partindo da experiência disruptiva do próprio CIEJA. “Você tem a proliferação de prédios que poderiam ser escolas ou presídios. Mas aqui no CIEJA Campo Limpo, estamos em uma sala que é fruto de um processo criativo. Em meio a um encontro indígena pelo qual passaram hoje mais de 10 etnias. Aqui temos um vocabulários diferente, cores diferentes, móveis diferentes. E quando você tem outras possibilidades e disposições, você faz outras sinopses”, apontou.

Resistir, reinventar

Dentro da necessidade de reivindicar uma educação descolonizada, Priscila compartilhou ainda a experiência dos Círculos Narrativos. Idealizados a partir de sua vontade de romper com o pensamento ocidental cartesiano, os círculos surgem visando uma maior escuta dos anseios e necessidades dos alunos.

“Cresci entre o mundo letrado do meu pai e o mundo da oralidade de minha mãe que era analfabeta. Lendo teóricos africanos, indígena, caribenhos, comecei a repensar esse discurso do ocidente de silenciar outras formas criativas de educação. E a verdade é que a escrita silenciou outras formas civilizacionais. Fui então ver o que os analfabetos tinham a dizer e muitas coisas começaram a fazer sentido”, contou.

A dinâmica dos Círculos Narrativos, basicamente, se resume a transformar as aulas em momentos de diálogo, abrindo espaço para a troca de ideias e reflexões em que todos possam falar e escutar seus pares com liberdade.

“A fala é mais democrática que a escrita. A roda é um território educacional para as culturas tradicionais, não é à toa que há a roda de samba, de capoeira, de santo. Como você vai de uma cultura [afro-brasileira] onde o corpo é templo para uma cultura onde o corpo é nada, que deve ser calado na escola? Então os  círculos narrativos são uma maneira de pensar a troca, a possibilidade. É a criatividade enquanto potência criadora”.

Diego levantou ainda uma provocação: qual o tipo de escola estamos oferecendo para a periferia? “No Cieja, temos pessoas que foram excluídas do processo de educação. Eu, pessoalmente, demorei muito para entender a função da escola. Achava que tinha que aprender para ser alguém e que isso significava ganhar mais dinheiro. Aqui não. Aqui, a gente tem transexual, pai de santo e evangélico juntos tendo que resolver problemas da vida real. Uma escola que faz como a periferia: resolve junto. É a transformação do aqui e do agora”.

Assista ao evento de lançamento na íntegra

Lançamento e debate ao vivo do livro digital “Criatividade – mudar a educação, transformar o mundo”

Confira como foi o bate-papo ao vivo do lançamento da publicação "Criatividade: mudar a educação, transformar o mundo”. 💛Com mediação de Flavio Bassi, co-coordenador do Escolas Transformadoras, e participação de Diego Elias, diretor do CIEJA Campo Limpo, e Priscila Dias, professora das redes municipal e estadual de São Paulo e historiadora – ambos autores de artigos da publicação.

Posted by Escolas Transformadoras on Thursday, June 6, 2019