24/06/2020

Recomendação do CME coloca escolas inovadoras como potenciais formadoras da rede

Tão diverso quanto os territórios são as possibilidade de se fazer educação. Por isso, a Lei de Diretrizes e Bases (LDB) assegura a autonomia das escolas e organizações educativas para personalizarem suas práticas, tempos e espaços de acordo com que julgam ser mais significativo. 

Esta busca pela inovação ganha novo fôlego com uma recomendação publicada pelo Conselho Municipal de Educação (CME) de São Paulo, em 3 de abril. A prescrição aponta a importância de incentivar encontros e discussões que possibilitem o compartilhamento das experiências inovadoras da rede com as demais escolas, potencializando, assim, “um espaço de experimentação, pesquisa e elaboração coletiva de políticas educacionais com vistas a melhores condições de aprendizagem e desenvolvimento.”

Segundo o texto, esta estratégia é fundamental para que, de um lado, as unidades possam criar novas possibilidades para seus projetos pedagógicos e, de outro, se ofereça à Secretaria Municipal de Educação subsídios para a tomada de decisão em relação aos processos de regulação da Rede Municipal de Ensino, superando as possíveis dificuldades e fortalecendo a autonomia das escolas.

Uma conquista, segundo especialistas. Pois se a inovação educativa é fomentada na lei, na prática, são muitas as experiências que permanecem isoladas por falta de incentivo ou políticas que possibilitem o intercâmbio de seus aprendizados. “Na maioria das redes, estas escolas são apenas toleradas ou então, quando apoiadas, não chegam a desempenhar um papel de formação ou de inspiração para as outras”, aponta Helena Singer, do Movimento de Inovação na Educação, que participou do encontro “Recomendação para ousadia”, no Festival Ocupa a Cidade.

A própria gestão tem dificuldade de objetificar políticas públicas para apoiar estas experiências, lembra Fátima Antonio, ex-secretária adjunta da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo. “É preciso que, primeiramente, os gestores reconheçam essas experiências inovadoras que acontecem dentro do nosso sistema educacional. E isto nem sempre significa reconhecer aquela organização educativa que está com um projeto mais avançado, mas que todas as unidades educacionais realizam cotidianamente ações inovadoras. A gestão pública precisa se aproximar destas histórias, dar visibilidade e promover a troca.” 

Caso contrário, permaneceremos na lógica da criação de ilhas de excelência dentro das redes, mas que não ‘contaminam’ o restante, diz Cláudia Costin ex-secretária de educação do Rio de Janeiro, em cuja gestão foi implementado o projeto GENTEGinásio Experimental de Novas Tecnologias Educacionais.

Situado na Rocinha, o GENTE foi idealizado para ser uma escola modelo que mostrasse na prática uma educação contemporânea e com sentido para seus alunos. “Foi um projeto bastante desafiador e trouxe resultados bem interessantes. Mas a verdade é que não contaminou a rede, porque para que isso ocorra tem que haver uma liderança que compre as brigas”, diz. 

Subsecretária Municipal de Gestão Educacional de Manaus (AM), Euzeni Araújo Trajano conhece este desafio de perto. Em 2015, a rede municipal iniciou um trabalho de implementação da educação integral em algumas escolas paralelamente a um programa de formação continuada do corpo docente. 

Referência em toda a rede por conta de seu currículo inovador, a EMEF Profº Waldir Garcia foi a mobilizadora dos encontros formativos. “Criamos um Grupo de Trabalho (GT) com gestores que gostariam de aprender com esta experiência. A proposta era que a experiência concreta pautasse a política pública e não o contrário”, conta.

A estratégia, inclusive, vem sendo repetida no atual momento de pandemia. Uma das cidades mais afetadas pela Covid-19, a rede de Manaus tem reunido seus gestores escolares mais experientes e que trabalham com metodologias diferenciadas para planejar a eventual retomada das aulas. “Esse GT está discutindo ações e propostas com os demais gestores da rede. Por que eles? Pois eles possuem uma experiência única de engajamento familiar, acolhimento dos alunos, gestão democrática e participativa, que acreditamos que serão essenciais para essa volta”, explica Euzeni. 

Claudia endossa esta perspectiva: para ela, o fato das redes terem tido que se adaptar emergencialmente para o ensino remoto trará impactos significativos. “Os gestores terão que incorporar o que foi aprendido neste processo, olhar paro ensino híbrido e metodologias ativas de outro modo. Este momento nos desafiou a nos abrir para novas experiências. A escola refletirá isso”.