25/09/2019

Qual o lugar da avaliação na escola?

Imagine um espaço educativo sem provas ou notas. No lugar de boletins e testes pré-estabelecidos, feedbacks individualizados acontecem o tempo todo com o consentimento dos aprendizes, mas de forma a não hierarquizar saberes e habilidades. Parece utópico? Pois esta comunidade de aprendizagem existe: na Casa da Árvore, localizada em Uberlândia (MG), os alunos de 4 a 18 anos não são avaliados por números e outras métricas, mas a partir do seus objetivos e expectativas.

Para a equipe pedagógica, esta metodologia permite respeitar o ritmo de aprendizagem de cada indivíduo e focar no que mais importa: a aprendizagem. “Buscamos eliminar todos os obstáculos estranhos à aprendizagem e, para nós, a atribuição de notas resulta em uma distração, uma dispersão diante do objetivo da aprendizagem. A meta passa a ser atingir um score alto e não aprender”, explica Luís Gustavo, membro da equipe. 

Além disso, para o educador, avaliar é um processo relativo, que pode depender do olhar de quem avalia e estar dotado de critérios subjetivos que, às vezes, o próprio avaliador desconhece. “Podendo focar em seus objetivos sem a distração de ter o tempo todo que agradar outras pessoas ou ter que atingir determinada nota porque sua autoimagem está atrelada a esse tipo de sucesso, os aprendizes podem explorar, tentar e errar inúmeras vezes – que é o método que todos nós utilizamos para aprender, desde os primeiros passos e as primeiras palavras, até uma receita nova de bolo”, diz.

Prova é avaliação?

Se é verdade que, no senso comum, o termo avaliar tem sido usado como sinônimo de aplicar provas e notas, este não é o real significado de avaliação. Uma visão mais contemporânea da escola assume a função dos processos avaliativos como a de melhorar a qualidade do processo educacional em todos os seus aspectos.

Nesta perspectiva, a avaliação está a serviço da formação do educando e não o inverso. Os resultados das avaliações devem necessariamente servir como ponto de partida para uma reflexão aprofundada dentro da escola, pois eles só têm sentido na medida em que servem para orientar próximos passos, funcionando não como métodos de classificação e rotulação dos alunos, mas como um diagnóstico do processo de ensino-aprendizagem.

“O problema é que as provas são confundidas com avaliação, quando são apenas um instrumento para coletar informações sobre o aluno. E a nota, por sua vez, é um tipo de escala, de medida que alguém constrói para alocar aquilo que supõe que nós saibamos. Também não é avaliação por si só”, explica Ocimar Alavarse, professor da Faculdade de Educação da USP.

Para o especialista, a principal questão hoje em torno da avaliação não está necessariamente nos instrumentos utilizados, mas na falta de clareza de seu objetivo e critérios. “O problema que temos encontrado é que essas notas, em tese, relatam o conhecimento, a aprendizagem do aluno, mas vários estudos mostram que as notas carregam também outros aspectos. Por exemplo, o aluno que sabe muito, mas é bagunceiro, não faz tarefa de casa ou obedece o professor, acaba tendo pontos tirados. E vice-versa. Então estimamos que de 60 a 70% da nota diz sobre aprendizagem, de resto são outras coisas, que não são coisas necessariamente ruins, mas que não dizem do conhecimento do aluno.”

Outra questão são o que as provas tentam coletar. “Muitas das coisas que o professor quer avaliar precisam aparecer em uma situação que é artificial – o teste. Por exemplo, a capacidade de leitura: uma coisa são o que os alunos leem na vida, outra coisa é o que a escola pede para ler. E são essas últimas informações que eu vou associar ao que o aluno aprendeu. Avaliação na escola é julgar aquilo que as pessoas teriam aprendido só que eu não vejo aquilo que o aluno aprendeu. Vejo resultados, desempenho em uma situação”, diz Ocimar. 

Por que avaliar?

Feitas estas críticas, Ocimar reitera a importância de processos avaliativos na escola. “Por que eu tenho que avaliar? Porque quando estou dando aula quero que os alunos aprendam e para saber se isso está acontecendo preciso levantar informações que são dadas pela avaliação. Também não preciso avaliar tudo na escola. Tem muita coisa que é ampliação de repertório, por exemplo, mostrar uma canção ou levar os alunos ao teatro. Se escolarizarmos demais tudo que acontece aplicando atividades e testes, os alunos ao invés de apreciarem vão achar aquilo muito chato.” 

Luís Gustavo também pondera sobre a necessidade de refletir sobre o lugar da avaliação nos processos pedagógicos, mas sob outra perspectiva. Para ele, é preciso atentar para o que está sendo avaliado, como está sendo avaliado e por qual razão. “Fazer só porque “sempre foi feito assim” ou porque “é impossível fazer de outra forma” não nos parece ser algo razoável. A quem serve a avaliação? Essa é uma boa pergunta para começar. Acreditamos que a avaliação teria que refletir esse respeito e ser coerente com a ideia de que cada um aprende em um ritmo, ou seja, não poderia ser uma avaliação que submetesse todos aos mesmos critérios, às mesmas expectativas ou que constrangesse os estudantes com a sensação de que eles devem se adequar a um ritmo único”, diz.