16/11/2020

O que o uso de recursos digitais de uma professora na pandemia pode ensinar a outros educadores?

Reviravolta da escola*Texto publicado originalmente no Centro de Referências em Educação Integral

As escolas e os estudantes que tiveram a oportunidade de utilizar as tecnologias digitais durante a educação remota têm a chance de recriar a forma como o ensino e a aprendizagem acontecem também presencialmente.

Para a educadora e socióloga Helena Singer, essa foi a maior curva de aprendizado dos professores em relação ao uso dos recursos digitais na educação, que começou de maneira rústica, tentando fazer pelo computador o que se fazia em sala de aula, mas que em vários contextos teve condições de avançar.

“Os professores descobriram um universo de recursos digitais que permitem uma interação qualificada com os estudantes, promovendo a autoria deles: os professores mais orientando o processo e criando oportunidades, e menos dando aula, algo a que estavam muito acostumados”, afirma.

A experiência da professora Roseane Mota ilustra bem esse percurso. Ela leciona no Centro de Excelência Edélzio Vieira de Melo, uma escola pública de Ensino Médio em tempo integral em Santa Rosa de Lima, Sergipe, e conta que a experiência com tecnologias digitais a fez rever toda sua prática. “Esse período me ajudou a me reinventar como profissional. É uma experiência que vou levar para minha vida toda, inclusive porque ainda temos muitos desafios pela frente”, diz a educadora.

Mas essa não foi uma trajetória sem percalços. Roseane e sua colega Tatiane Oliveira, ambas professoras de Língua Portuguesa, decidiram criar um podcast com os conteúdos das aulas. O formato era interessante por permitir a oralidade e manter a voz das docentes presentes, acessível pelo celular em aplicativos gratuitos. Os adolescentes, por sua vez, poderiam baixar os episódios quando tivessem acesso à internet e ouvir depois.

“O podcast Aprendizagem Interativa começou com episódios direcionados para o conteúdo programado para as aulas presenciais. Mas com o tempo, a partir de devolutivas dos alunos, começamos a perceber que não estava dando certo”, conta Roseane.

Refletindo sobre a questão, chegaram à conclusão de que não era possível continuar com as atividades como eram antes da pandemia, contando apenas com a mediação da tecnologia. Em vez disso, decidiram colocar os alunos em seu lugar: o de protagonistas. Assim, criaram o quadro “Papo reto: a vez e a voz dos alunos”, um espaço para os jovens falarem sobre como tem sido a quarentena para eles e que ponto de vista têm sobre o futuro.

Foi por meio desse canal que as professoras de Língua Portuguesa, mas também todos os seus colegas, descobriram que uma das alunas não estava conseguindo realizar as atividades escolares porque sofria com crises de ansiedade. Outro estava há meses afastado da mãe, internada em um hospital nos estágios finais de um câncer, o que prejudicou sua capacidade de se concentrar nos estudos.

“Não está sendo fácil para os jovens. E esse quadro nos permitiu ver a realidade dos nossos alunos, e a ser mais compreensivos e maleáveis com eles, em vez de só cobrar desempenho”, conta Roseane.

O podcast tornou-se um sucesso entre a garotada. Além dos conteúdos da disciplina e do quadro com os alunos, as professoras também começaram a entrevistar profissionais e especialistas sobre assuntos do momento ou relacionados às juventudes, como autoestima e autoaceitação, saúde mental, racismo e a questão dos imigrantes refugiados no Brasil. Os alunos ainda estudaram sobre o próprio gênero do podcast, e experimentaram produzir seus próprios episódios.

Trata-se de uma oportunidade rica para aprimorar uma série de conhecimentos, como pesquisa, redação, argumentação e oralidade, e transformar tudo isso em um produto digital. “O mundo evoluiu e nossos jovens são totalmente ligados à tecnologia. Então é preciso uma troca: os professores têm que mostrar interesse pelos estudantes, por suas ações e por esse universo, para que eles também se interessem pelo que nós temos a oferecer”, diz Roseane.

Foi por meio desse contato mais próximo com os estudantes que a professora Roseane também começou a questionar os prazos para entrega de atividades. Vários estudantes não estavam conseguindo cumpri-los, muitos por falta de acesso a aparelhos digitais e à internet. “Parei de colocar prazos. Fazemos alguns combinados, mas eles podem me entregar no tempo deles”, explica.

E contrariando as expectativas do senso comum, de que sem prazos os adolescentes não realizam nada, a professora percebeu um aumento na devolutiva das tarefas, bem como maior qualidade. O sucesso da iniciativa se disseminou para os demais professores, que também pararam de estipular prazos.

“Fazendo imposições, estávamos perdendo a participação dos alunos. Quando priorizamos o bem-estar deles e tentamos cativar seu interesse pelos assuntos, percebemos que os alunos estudam com mais tranquilidade e empenho”, conta a educadora.

O que fica para o futuro? 

A combinação de dar autonomia e protagonismo para os estudantes e convidá-los a aprender por meio da prática, usando recursos digitais, foi uma experiência exitosa que a professora Roseane pretende incorporar à sua prática para o retorno presencial e com as próximas turmas que ela vai receber.

“O que eu levo é a importância do meu lado humano e emocional para o processo de ensino e aprendizagem, muito além da preocupação de passar conteúdos, e a capacidade de pensar a minha prática para impulsionar aquilo que o aluno já traz em si, enquanto protagonista de sua própria história”, diz.

Para realizar esse trabalho, a professora Roseane contou com o apoio de seus pares e  gestores do Centro de Excelência Edélzio Vieira de Melo, e uma série de outras condições básicas que possibilitam aos educadores pesquisar sua prática e reinventar-se.

Mas, pelo Brasil afora, nem todas as escolas, professores e estudantes têm essa mesma oportunidade, seja por falta de formação continuada para os docentes, de apoio da escola e da rede de ensino ou, como pontua  André Lázaro, diretor de políticas públicas da Fundação Santillana, de acesso aos recursos: “A tecnologia entrou e vai ficar em nossas vidas. Mas há a necessidade de dotar as escolas de uma infraestrutura de comunicação e informação que deveriam também ficar disponíveis para uso da comunidade, porque não podemos mais excluir o direito à comunicação do rol dos direitos humanos”.

E nesse cenário de busca por ampliação do uso das tecnologias nas escolas, o especialista chama atenção para a relação entre as preocupações pedagógicas e as comerciais. “Há um  empenho, por parte dos grandes conglomerados da internet, de tornar o ensino híbrido uma realidade permanente no Brasil, mesmo que isso não corresponda a uma necessidade pedagógica. Então vão se acirrar as disputas em torno dos modelos educacionais, em que a dimensão presencial e remota vão estar em confronto, mas precisamos sempre ter a segurança de que razões pedagógicas foram consideradas na tomada de decisão”.