05/11/2019

“Escolas 2030” irá mapear o que funciona na educação de 10 países, incluindo o Brasil

O que funciona na educação para formar crianças e jovens com os conhecimentos, habilidades e valores necessários para a sociedade atual? É buscando responder esta pergunta que surge o programa Escolas 2030, uma pesquisa-ação que se estenderá por 10 anos – de 2020 a 2030 – em 10 países do mundo, incluindo o Brasil, com o objetivo de identificar “laboratórios de inovação de desvios positivos”.

Além do Brasil, o programa será desenvolvido em Portugal, Quênia, Tanzânia, Uganda, Afeganistão, Quirguistão, Índia, Paquistão e Tajiquistão, envolvendo 1000 organizações educativas.

Com lançamento global previsto para fevereiro de 2020, em Londres, e no Brasil, entre fevereiro e março, a proposta é ajudar os governos locais a alcançar o ODS 4 (assegurar a educação inclusiva e equitativa e de qualidade, e promover oportunidades de aprendizagem ao longo da vida para todas e todos).

Na entrevista abaixo, Thais Mesquita, coordenadora executiva do programa no Brasil, fala sobre como a iniciativa atuará e os resultados esperados. Confira:

Movimento de Inovação na Educação: Como se dará a atuação do Escolas 2030 no Brasil?

Thais Mesquita: A atuação do programa considera a agência das organizações educativas na pesquisa-ação, que será estruturada de acordo com três cortes etários: 5, 10 e 15 anos, avançando sucessivamente durante os 10 anos de duração. A ideia da pesquisa-ação é implementar e investigar, ano a ano, “o que funciona” nessas organizações em termos de promoção de uma educação que considera o desenvolvimento integral de crianças e jovens.

Contaremos com professores e gestores das organizações educativas como pesquisadores em articulação com uma equipe de pesquisa da Universidade de São Paulo. Todas as 1000 organizações educativas nos dez países vão utilizar um software desenvolvido especificamente para o programa como forma de facilitar a coleta e também a análise de dados tanto pelas equipes escolares como por pesquisadores das universidades nacionais e pesquisadores e parceiros técnicos internacionais. 

MIE: Como o programa Escolas 2030 está estruturado no Brasil?

TM: Interessada na proposta, a Fundação Itaú Social se tornou uma das doadoras globais, sendo quem financia integralmente o programa no país e o implementa junto com a Ashoka e a Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo. As três instituições compõe a Equipe Coordenadora no país. Além disso, contamos com um Comitê Consultivo composto por representantes de instituições de pesquisa, organizações da sociedade civil, representantes de secretarias municipais e estaduais de educação, pesquisadores de universidades, órgãos internacionais, representantes de organizações de jovens, entre outros atores fundamentais da área da educação no Brasil.

MIE: E como o programa desenvolvido no Brasil se articula com aqueles desempenhados nos outros países?

TM: O programa tem como princípio fomentar ações que sejam localmente enraizadas mas dialoguem globalmente, ou seja, os países devem respeitar as diretrizes globais para possibilitar a troca de aprendizado mas, ao mesmo tempo, têm autonomia suficiente para implementá-lo de uma forma que faça sentido para seu contexto específico. Exemplo disso é que todos os países vão utilizar o mesmo software para coleta e análise de dados, mas cada um poderá definir quais são as dimensões de aprendizagem prioritárias a cada ano e coorte para a pesquisa-ação em seu território.

Um ponto a destacar é que, uma vez que todos os outros nove países têm a Fundação Aga Khan à frente da implementação do programa, é possível dizer que há um diálogo mais próximos entre os mesmos em relação ao Brasil. Ainda assim, cada um está participando de acordo com as suas especificidades culturais e regionais. Com o desenvolvimento do programa, espera-se que as articulações entre todos os países se fortaleçam a partir dos fóruns globais anuais de apresentação das estratégias e soluções pesquisadas e outros momentos de troca.

MIE: Em que momento o Escolas 2030 se encontra agora?

TM: No Brasil, especificamente, já fizemos uma primeira reunião do Comitê Consultivo e nesse mês de outubro realizamos a Oficina de Co-criação de Escolas 2030 no Brasil, com o intuito de construir coletivamente os rumos do programa no país. Participaram deste evento representantes de organizações educativas do Movimento de Inovação em Educação, além de membros que articulam esse movimento, representantes de secretarias de educação, pesquisadores de universidades, representantes de organizações da sociedade civil, entre outros atores que promovem uma educação democrática, inclusiva e transformadora. Muitos desses pertencentes à comunidade Ashoka, sejam empreendedores sociais, jovens transformadores ou escolas transformadoras. Durante dois dias, apresentamos a proposta geral do programa, debatemos o contexto atual de educação no Brasil e fizemos grupos de trabalho para refletir sobre as dimensões de aprendizagem que queremos promover e avaliar no âmbito do Escolas 2030. 

MIE: Poderia dar exemplos de conhecimentos, habilidades, atitudes que buscam nessas instituições?

TM: O objetivo do Escolas 2030 é a promover a melhoria da educação integral considerando as diversas dimensões de aprendizagem sejam elas conhecimentos, habilidades, condutas ou valores. Estamos buscando entender como as organizações educativas promovem colaboração, criatividade, empatia, autonomia, raciocínio lógico, respeito pela diversidade, protagonismo, entre tantas outras dimensões de aprendizagem que podemos elencar. 

MIE: Quais são as expectativas de impactos desta pesquisa-ação em políticas públicas educacionais? Há a proposta de construir novos indicadores da qualidade da educação?

TM: O programa tem o intuito de impactar políticas nacionais e diretrizes internacionais de educação. A ideia é lançar um novo olhar sobre o significado de qualidade na educação por meio da construção de indicadores para dimensões que são muitas vezes desvalorizadas. Em um mundo em constante transformação, é necessário entender que habilidades e valores como empatia, colaboração e respeito à diversidade são tão importantes quanto o domínio da língua escrita e da matemática. Aliás, a ideia do programa é conseguir mapear soluções que busquem trabalhar essas diferentes dimensões de forma articulada, evitando fragmentações e visões instrumentais. 

Por meio desse mapeamento, realizado em diálogo constante entre as organizações educativas em cada país e globalmente, acreditamos que será possível influenciar a forma como as avaliações externas, nacionais e internacionais, são construídas e implementadas. É preciso repensar o que norteia a educação, principalmente a escolar para, a partir daí, transformar os processos e objetivos das políticas públicas e promover uma melhora significativa na educação integral no país. 

MIE: E como as universidades participarão da iniciativa?

TM: Em cada país contamos com uma universidade parceira na pesquisa-ação. Essa foi uma sugestão da equipe global no sentido de valorizar o trabalho das instituições dos diferentes locais, no lugar de centralizar a pesquisa-ação em alguma universidade internacional de referência. Além desta universidade parceira em cada país, é possível fazer parcerias com outras para promover o programa. No Brasil, a Universidade de São Paulo, especificamente sua Faculdade de Educação, é a parceira do programa. No entanto, como pretendemos trabalhar com organizações de diferentes regiões e, ao mesmo tempo, entendemos que outras universidades têm muito a contribuir, desejamos envolvê-las também no processo.

MIE: Como o Movimento de Inovação na Educação contribuiu e pode continuar contribuindo para criação dessa iniciativa aqui no Brasil?

TM: O Movimento de Inovação na Educação tem papel central para o desenvolvimento de Escolas 2030 uma vez que congrega redes de instituições e especialistas que estão trabalhando no sentido de qualificação e promoção da educação integral. Para a seleção das 100 organizações educativas no Brasil, vamos partir daquelas que fazem parte das redes que compõem o Movimento, pois já passaram por um primeiro mapeamento. Não trabalharemos com todas elas, mas especificamente com as que trabalham com crianças e jovens em situação de pobreza e demonstram possibilidade e vontade de fazer parte do programa. Outro ponto é a capacidade de divulgação e disseminação de conteúdos que o MIE apresenta e que será muito importante para a comunicação nacional do programa. Além disso, contamos com os especialistas do grupo articulador para nos auxiliar em momentos estratégicos.

Por outro lado, é possível pensar que Escolas 2030 se torna complementar ao Movimento na medida em que este tem como foco as dimensões de educação que uma organização educativa deve apresentar para ser considerada inovadora e o programa internacional, por sua vez, tem como foco as dimensões de aprendizagem que essas organizações promovem. Ou seja, o programa fortalece a visão do Movimento com seu objetivo de mensurar, por meio da construção de indicadores, o impacto dessas organizações inovadoras sobre a aprendizagem de cada estudante.