Educação quilombola: como as escolas incorporam os saberes do território?

Texto publicado no site Centro de Referências em Educação Integral

Grioto significa “biblioteca viva” para muitas comunidade quilombolas. É assim que eles designam os mais velhos, guardiões dos saberes culturais, responsáveis por ensinar aos mais novos a viver segundo suas tradições, a cultivar plantas, a ler a natureza, a entender os sinais da terra, e a manter vivos os antepassados que fundaram a comunidade e os seres folclóricos que habitam o imaginário de cada um.

A comunidade quilombola trata-se de um fértil território educativo, onde crianças recebem uma educação integral, brincando, experimentando, conversando e observando as demais crianças e adultos.

A educação quilombola tem respaldo em documentos como as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Escolar Quilombola e a Lei n. 10.639/03, pela educação para as relações étnico-raciais nas escolas.

Neste contexto, a escola quilombola serve para sistematizar esses saberes e garantir o direito de todos à educação. Contudo, se essa escola não tiver um quadro docente e de gestão composto primordialmente por educadores oriundos da comunidade e atentos a uma educação quilombola, o resultado pode ser a imposição dos saberes curriculares sobre os locais.

Conheça algumas escolas que promovem uma educação quilombola que parte dos saberes locais e do território para ensinar os conteúdos curriculares.

Escola Estadual Maria Antonia Chules Princesa (SP)

A maior parte das 80 comunidades quilombolas do Vale do Ribeira (SP) utiliza um método de plantio desenvolvido há mais de 300 anos, conhecido como Sistema Agrícola Tradicional (SAT), que foi reconhecido como patrimônio imaterial em setembro de 2018 pelo IPHAN, por ser altamente eficaz, mas sem danificar a Mata Atlântica da região.

Orgulhosos desse sistema, a escola de Ensino Fundamental e Médio, localizada no quilombo André Lopes, organiza saídas com os alunos para mostrar como funciona o SAT. Também aprendem a socar arroz e visitam uma casa de fazer farinha de mandioca. “Tudo isso faz com que eles aprendam a valorizar essa alimentação, e que hambúrguer não é melhor do que cará e palmito, até pelo seu modo de produção”, conta o professor Luiz Marcos de França Dias.

Nessa escola, as noções de ecologia estão presentes até nas brincadeiras. “Na aula de Educação Física, a gente tem trabalhado a construção da peteca e de bonecas com sabugo de milho”, conta o professor.

Também aproveitam as idas aos quilombos para descobrir as brincadeiras e brinquedos tradicionais da comunidade, e brincam de “caça-memórias”, para resgatar a história da fundação da comunidade. Os poucos professores dessa escola que não são quilombolas também passam por um processo de formação e visitam esses territórios.

“Esses professores aprendem sobre como a gente se relaciona com a natureza e com as pessoas e porque nossas casas não tem muros. A comunidade zela por todas as crianças, não só as suas. Garantir o território é garantir a existência da comunidade”, afirma o professor.

Apresentação de danças e ritmos africanos e quilombolas Crédito: Secretaria Estadual de Ensino

Na parte de linguagens, área de atuação de Luiz Dias, as crianças aprendem matemática, português e inglês, mas se estimula a utilização da língua local, mostrando os contextos mais adequados de quando usar uma ou outra. Também aprendem literatura africana e afro-brasileira, etnomatemática, e a converter medidas: alqueires e braças viram hectares e metros. “Queremos que nossos alunos saibam usar uma foice no chão tão bem quanto ir para a cidade e encarar o trânsito”, explica.

Na região, também é muito presente a capoeira, o jongo, e uma dança típica, conhecida como dança da mão esquerda. Por isso, estas manifestações são trabalhadas nas aulas. Outras também são levadas para a escola pelas próprias crianças, oriundas de diferentes comunidades. “Aqui não é só professor que ensina”, diz Luiz.

Centro Quilombola de Formação por Alternância Raimundo Souza (MA)

A comunidade quilombola Jamari dos Pretos, em Turiaçu (MA), tem enfrentado a desvalorização da própria cultura. Apesar da forte tradição no uso medicinal das plantas para casos que não requerem um hospital ou tratamentos mais específicos, muitos moradores têm preferido enfrentar a dor do que aceitar um analgésico feito a partir de cascas de árvores.

“Levar esse saber para dentro da escola fortalece essa cultura dentro da comunidade, e as pessoas veem sua importância por outro viés”, conta Antonio Maria Ribeiro Pinheiro, professor de Ciências Agrárias na escola, que oferta Ensino Médio Profissionalizante em Agropecuária.

A escola surgiu da vontade que muitos tinham de permanecer na própria comunidade, sem ter que sair para concluir os estudos ou conseguir um emprego. Antonio Maria ressalta que esta, por si só, já é uma conquista, mas que ainda seria importante trazer mais da cultura quilombola para as salas de aula. ”Esses saberes estão se perdendo com os mais velhos. Parte da comunidade resiste nessa questão de valorizar a própria cultura”, conta.

Dentre outros saberes da comunidade que poderiam fazer parte da educação escolar quilombola, o professor destaca os ritmos e batuques, como o tambor criolo e o artesanato, que vão desde utensílios para uso na lavoura, como peneira e balaio, até adornos, como o anel de semente de tucumã, uma palmeira da região.

Também conta sobre as lendas da região, como o Curupira e os bichos do mato ou da água, espíritos da floresta que zelam pela natureza e evitam que animais sejam caçados em demasia ou que se derrubem muitas árvores.

Mas há avanços. A escola se dedica a contar a história da formação da comunidade e sobre a escravidão no Brasil promovendo visitas a fazendas que usavam mão de obra escrava, e recolhem e expõem utensílios e artesanatos encontrados nos locais. “Nós fazemos isso para explicar para os jovens que, às vezes, não tem muito conhecimento dessa situação, para que isso nunca mais se repita”, afirma o professor.

Colégio Estadual Quilombola Maria Joana Ferreira (PR)

Alunos jogam capoeira. Crédito: Facebook/Reprodução

A princípio, esta escola quilombola de Palmas (PR) só ofertava os anos iniciais do Ensino Fundamental. Depois desta etapa, os alunos eram obrigados a mudar para escolas regulares para continuar os estudos e a experiência raramente era positiva — a escola era distante, os alunos sofriam preconceito e discriminação, e tinham seus saberes menosprezados. O resultado é que, muitas vezes, abandonavam os estudos.

A líder da comunidade Maria Arlete, atenta a essa situação, pediu a expansão da escola. Agora, a unidade oferta até o Ensino Médio, com gestores e educadores quilombolas, e uma matriz curricular inteiramente dedicada à valorização dos saberes quilombolas, afro-brasileiros e africanos.

“Em matemática, a gente trabalha jogos e geometria africana. Em português, foram trabalhados os hinos das nações africanas. Em um projeto interdisciplinar, também estudamos 6 países africanos e suas relações com a cultura quilombola e afro-brasileira”, explica Mara Lúcia da Rosa, coordenadora pedagógica.

Como a escola fica em um quilombo urbano, os adultos e crianças têm pouco costume de plantar o próprio alimento. Por isso, a merenda da escola é pensada com foco nisso. Por meio de doações de alimentos naturais, preparam abóbora, mandioca, chuchu, canjica, quirera com carne de porco, e conversam com os alunos sobre alimentação e produção de alimentos.

Estudos de jogos e geometria africana. Crédito: Facebook/Reprodução

Agora, a escola está diante de um novo desafio, pois receberam alunos indígenas da etnia Kaingang. “Estamos tentando trazer professores indígenas para a escola, mas por enquanto o que fazemos é promover trocas de vivências nas comunidades. E o mais legal é que agora alunos quilombolas estão aprendendo a língua Kaingang”, conta a pedagoga.

Outra ação da escola é trazer anciãs quilombolas para conversar com os alunos, com o objetivo de resgatar o entendimento de que suas histórias são construídas pela oralidade e conversas em roda, e não pela escrita.

“A nossa comunidade tem regime matriarcal. Elas vêm então contar sobre a nossa formação e lendas, e isso faz com que os alunos vejam esse lugar da mulher como positivo, que nunca fomos silenciadas, como na sociedade patriarcal. A nossa escola é resistência, é trazer o negro como uma figura positiva, e não negativa como sempre esteve nos livros didáticos”.

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