Por meio de projetos sociais, jovens transformam suas comunidades

Reviravolta da escolaEstudar ou ir para a roça. Durante toda sua vida, essa foi a dicotomia apresentada a Luiz César da Silva, 19 anos, morador da zona rural de Mata Grande, em Alagoas, que viu amigos e parentes recaírem sobre a segunda opção pela necessidade de ajudar no sustento de suas casas. “Eu tinha muito medo de ter que ir para a roça. Até porque o nosso direito à educação nunca esteve assegurado. Muitas vezes, por exemplo, não havia transporte para nos levar para a escola”, conta.

E os empecilhos não paravam por aí. Pobreza, violência, machismo, ausência de atividades culturais e tantas outras vulnerabilidades sociais compunham um quadro difícil de superar para a maioria dos jovens da região. “Tudo isso fez com que, aos 12 anos, eu me levantasse junto aos meus primos e colegas para reivindicar melhores condições. A educação rural sempre foi vista com menosprezo, então a primeira coisa que fizemos foi reivindicar o transporte escolar na Secretaria de Educação”.

A atitude, no entanto, não saiu como esperado. Inexperientes, deram como a porta na cara, lembra. “Foi quando conhecemos a ong Visão Mundial e começamos a nos capacitar”. Assim nasceu o projeto “Visibilidade da juventude rural”, que há sete anos vem empoderando jovens e atuando de forma a impactar positivamente a comunidade por meio de uma série de iniciativas sociais que vão desde arrecadação de brinquedos até mutirão de plantio de árvores, sempre buscando a construção de vínculos e a participação das famílias e comunidade.

Como forma de minimizar os danos causados pela pandemia, apoiaram o projeto Criança Feliz, que distribuiu brinquedos, livros, e outros itens para as crianças da região. “Queremos mostrar como é importante garantir o direito das crianças da zona rural viverem suas infâncias, de brincarem. Também estamos com um projeto sobre violência contra mulher porque, infelizmente, aqui no interior a mentalidade é mais atrasada e ainda temos pessoas que justificam atitudes porque era assim na época de seus pais”, relata.

Atualmente, Luiz César cursa Geografia na Universidade Federal de Alagoas e quanto mais abrangente são suas trocas, maior também é sua convicção da importância de incidir sobre as decisões locais. “Eu nuca saí da minha comunidade. Meu desejo é transformá-la. A realidade do sertão de cidades pequenas é muito difícil, por isso acredito que as juventudes não devam se calar. Os jovens devem ocupar seus espaços, não deixar que os governantes decidam nosso futuro por nós. Não somos invisíveis, somos cidadãos”.

jovens transformadores

Machismo não!

Deste desejo de transformar a realidade compartilha Beatriz Ribeiro, 19 anos, moradora da zona norte do Rio de Janeiro (RJ). Como estudante de um colégio militar, não foram poucas as situações onde se sentiu silenciada. “Era um ambiente machista e o tratamento que as meninas recebiam lá não era confortável. E por mais que tenhamos tentando nos reunir várias vezes isso não era bem visto. Ao invés de ser incentivado, era reprimido”, conta.

A fim de subverter essa lógica, criou com outras jovens mulheres o clube Girl Up Elza Soares, que atua em prol da igualdade de gênero nas mais diversas esferas da sociedade como na política, ciências e esportes.

Com o início da pandemia, no entanto, uma urgência ganhou destaque: a pobreza menstrual. Ao perceberem que o absorvente não era considerado um item essencial das cestas básicas que vinham sendo distribuídas para as famílias em situação de vulnerabilidade, elas organizaram uma campanha de arrecadação. “Com o dinheiro, conseguimos distribuir mais de 1500 absorventes. Além disso, procuramos deputados para pautar este tema como política pública e assim conseguimos a aprovação de um projeto de lei estadual no Rio de Janeiro que prevê a inclusão do absorvente nas cestas básicas.”

jovens

Outro valor compartilhado pelo grupo é a importância da gestão democrática. Por isso, a própria governança do coletivo se estrutura a partir deste princípio. Ele possui um Conselho de Liderança, formado por 5 pessoas, que é renovado anualmente. Cada membro fica também encarregado de uma diretoria como Comunicação ou Contabilidade, e 20 jovens mulheres são eleitas membros regulares do grupo por seis meses.

Hoje estudante de Engenharia Química na Universidade Estadual do Rio de Janeiro, Beatriz percebe a necessidade de levar a discussão da igualdade de gênero também para este espaço. “É um curso majoritariamente masculino. Lembro de achar o banheiro feminino um dos espaços mais acolhedores da universidade porque estava repleto de mensagens de apoio de outras mulheres que passaram pela mesma situação. Então uma das nossas ideias para o futuro é Levar o Girl Up Elza Soares para a Semana de Ciências para debater a importância de ter mulheres nesta área”.