“É preciso mudar a visão da escola sobre a História se queremos manter a floresta de pé”

Cravada no coração da floresta Amazônica, a Reserva Extrativista (Resex) Tapajós-Arapiuns, localizada nos municípios de Santarém e Aveiro, no Pará, é sinônimo de abundância quando o escopo são recursos naturais e saberes tradicionais ribeirinhos. Mas tamanha riqueza se torna escassez quando o foco é infraestrutura e investimento local.

Os ribeirinhos que ali residem, não raro, se veem forçados a deixar suas terras em busca de melhores condições de vida. Foi o que ocorreu com a família de Luiz Henrique Lopes Ferreira, integrante do Engajamundo de 19 anos, que ainda bem menino se mudou para Manaus (AM), só retornando para seu berço natal com 10 anos de idade. “Quando voltei para a Resex, fiquei fascinado pela dinâmica de comunidade que tinha ali e comecei a circular e conversar com os jovens da região”, conta.

Suas andanças e trocas o destacaram como uma liderança juvenil e, aos 17 anos, Luiz Henrique criou um departamento voltado para a juventude no conselho local – responsável por representar a população da Tapajós/Arapiuns perante o governo. O objetivo? Representar as demandas e dar voz à população jovem da Resex, além de fortalecer e conectar em rede as diferentes comunidades do território. “Dentro da reserva são 75 comunidades e, para se ter uma ideia, só trabalhamos com 20, porque a logística de transporte é muita difícil”, explica.

Além do parco protagonismo juvenil, outro desafio que precisava ser enfrentado na região era a ausência de oportunidades para as pessoas e, sobretudo, os jovens que desejavam permanecer na reserva. “Os jovens saem para irem estudar, porque isso se coloca como uma alternativa melhor, já que quem fica, muitas vezes, não tem opção de trabalho ou estudo. Por isso, uma das nossas demandas era a criação dentro da reserva de uma sala agrícola, técnica ou de um polo de uma universidade, para fazer a juventude ficar”, conta ele.

Soluções para a floresta

Foi também na perspectiva de solucionar esta questão e gerar renda para os moradores ribeirinhos que idealizou, ao lado de outros jovens, o Delícias Tapajônicas, iniciativa criada por meio de um curso de empreendedorismo ofertado pela ONG Projeto Saúde e Alegria.

“Comecei a ver que o desperdício de frutas era enorme. Então, no princípio, pensamos em reaproveitá-las fazendo derivados como doces, sorvetes, etc. Mas as comunidades não têm energia 24 horas, o que nos impediu de fazer essas coisas por conta da refrigeração. A solução então foi fazer geleia e licor”, conta.

Os jovens passaram então a conversar com os moradores para fazer a ponte entre os produtores ribeirinhos e os consumidores finais, entre outras ações que trouxeram impactos positivos, como o empoderamento feminino. “Lá na comunidade não tem muito trabalho para mulher, só de roçado. E esses produtos deram a oportunidade delas terem uma ocupação”. Hoje, as geleias e licores são vendidos em eventos, para turistas e outros consumidores, mas por falta de investimento continua em uma escala bastante pequena. “Não teve verba para fazer crescer”, diz Luiz Henrique.

ribeirinhos em encontro

Outras narrativas na escola

Hoje atuando no Engajamundo, Luiz Henrique desenvolve projetos vários, que abordam desde consciência ambiental ao empoderamento juvenil.  “Queremos apoiar a juventude, principalmente, em relação ao seu território. Temos projetos de arborização, de agroflorestas em comunidades que são cercados pelo agronegócio, de empoderamento da juventude ribeirinha.”

Mas as conquistas poderiam ser muito maiores se a escola se abrisse para os saberes e necessidades das populações locais, defende Luiz Henrique. “Quando estava na escola da comunidade, em nenhum momento foi conversado sobre a criação da Resex, sobre as pessoas que lutaram por ela. Só havia o ensino copiado dos centros urbanos, padronizado. E acredito que esse é um dos pontos que faz com que os jovens não se empoderem ou se engajem.”

Além disso, este desconhecimento tem sido a raiz de muitos preconceitos. “Fico muito triste quando vejo jovens ribeirinhos que tratam de forma preconceituosa jovens indígenas. Se ele tivesse tido o ensino da nossa história, das nossas línguas, das nossas culturas tradicionais teria outro olhar. Mas a escola não empodera os filhos da floresta em relação a isso. A nossa cultura foi devastada, nosso povo dizimado e é preciso mudar a visão da escola sobre a História se queremos preservar e manter a floresta de pé.” 

Conheça mais na campanha #LeadYoung – Histórias de jovens que transformam, da Ashoka:

Sobre o Leadyoung – Histórias de Jovens que transformam

O Movimento de Inovação na Educação apoia a iniciativa Leadyoung – Histórias de Jovens que transformam, que conta histórias de jovens ou de adultos que começaram a transformar na juventude, identificando um problema que os sensibiliza, organizando equipes em torno de soluções para enfrentar o problema e, assim, produzindo impacto social. Conheça essas histórias. Você é ou conhece alguém que tem uma história de transformação social? Conte-nos através deste formulário.