29/04/2020

José Pacheco fala sobre o fim do Projeto Âncora

Barueri, 29 de abril de 2040

No dia 14 de abril de há vinte anos, a Edilene falou-nos, como só ela sabe, da Escola do Projeto Âncora e da Escola Aberta, numa das “lives” de abril. A Amanda tinha preparado a “live” com perfeição, esperávamos que fosse mais um tempo de grandes aprendizagens. E assim foi: uma live esclarecedora. Mas, estou viciado na escrita e não resisto a enviar-vos uma cartinha, para vos falar da possibilidade de fazer uma educação diferente, De possibilidades e de… obstáculos.

Em 2011, correspondendo ao pedido do saudoso Walter, rumei a Cotia, para ajudar a criar a Escola do Projeto Âncora. Ajudei a Cláudia e a Edilene a coordenar um extraordinário projeto. Os obstáculos a transpor eram  imensos – a maldade humana, o assistencialismo, a ignorância – e o projeto foi destruído. Tão logo foi possível, fez-se a estória do desenlace, um livrinho escrito a muitas mãos, que descreveu o pérfido processo de aniquilamento do projeto.

O Âncora foi um dos 178 projetos que o MEC reconheceu como inovadores, em 2015. Diz-se que a inovação mata a inovação… e a visibilidade social matou os projetos. Em meados de 2020, poucos restavam. Quase todos foram extintos, ou se degradaram, deixaram de ser inovadores. Em breve, vos contarei o epílogo do projeto de maior duração: o da Escola da Ponte. Soçobrou, ao cabo de dezenas de anos de sofrimento e resiliência. Sempre mantive extrema admiração pelos professores, que por lá continuaram, quando da Ponte me afastei. Compreendi que resistiram quanto puderam. E lhes fiquei grato, por me terem ajudado a compreender a origem do drama. Esperançoso que era (e ainda sou), fiquei na expetativa de que retomassem caminhos de mudança e inovação.

Nos idos de 2001, dando notícia da precária sobrevivência da Escola da Ponte, eu me dirigia a uma neta de tenra idade –  que viria a tornar-se psicóloga – com estas palavras: Tudo o que é justo e verdadeiro se ergue das cinzas, como a Fénix. As gaivotas da nossa história continuaram a sobrevoar mares longínquos, em busca de novos sóis, animadas de uma coragem que permite reconstruir ninhos devassados, envolvidas numa verdade tranquila, acima da espuma dos dias. Se a eternidade me esperar para além dos noventa, ainda hei de fazer um “manual da sobrevivênca dos projetos”, em homenagem àqueles que ergueram o Projeto Âncora, a Escola Aberta… Já escrevi a introdução, contando o início da Escola da Ponte. Numa noite de 1976, destruíram a horta e o hospital dos animais, que as crianças cuidavam com imenso desvelo. Criminosos a soldo de políticos locais pintaram com o sangue das vítimas, na parede da escola, a inscrição: Morte ao professor. Havia sangue por todo o lado. Chorei a destruição, abraçando-me às crianças, que choravam abraçadas aos despojos dos animais assassinados.

Quando, por volta de 1984, conseguimos assegurar a todos os alunos o direito à educação, começamos a receber torpes ataques. Os detratores agiram de forma violenta, explícita no terrorismo verbal, via telefone e em tentativas de agressão física. Lançavam panfletos, na calada da noite, contendo acusações falsas. Publicavam boatos em jornais. Porém, o sofrimento maior foi termos descoberto que muitos desses ataques eram provenientes de escolas próximas. Apercebemo-nos de que o maior aliado de um professor era o outro professor. Mas, com mágoa, também descobrimos que o maior inimigo de um professor “diferente” era o professor da escola do lado.