15/10/2020

Da gota no oceano

Por Cadú Fernandes*

Agora, o braço não é mais o braço erguido num grito de gol.

Agora, o braço é uma linha, um traço,

um rastro espelhado e brilhante.

E todas as figuras são assim:

desenhos de luz, agrupamentos de pontos, de partículas,

um quadro de impulsos, um processamento de sinais.

E assim — dizem — recontam a vida.

Agora, retiram de mim a cobertura da carne,

escorrem todo o sangue,

afinam os ossos em fios luminosos,

e aí estou, pelo salão, pelas casas, pelas cidades, parecida comigo.

Um rascunho. Uma forma nebulosa, feita de luz e sombra…

(Estrela, poema de Fernando Faro, 1982)

A aranha tece sua morada vagarosamente no teto do pátio. A Ora-pro-nóbis cresceu e atravessou as grades que margeiam o corredor. A folha que passou pelo friso da janela está seca há 7 meses e no chão deixou uma marca terrosa daquilo que fora verde. Na lousa repousa o registro da professora feito em março deste ano. É sobre o silêncio entre as palavras. Do espaço habitual, os corpos de professoras e professores passaram a outras moradas para as experiências formativas. Estes trabalhadores e trabalhadoras foram tantas e foram imensas! Foram a assistência social, foram a saúde, foram a mãe e o pai. Foram o irmão e foram também a ausência de quem deixou a memória como melhor morada.

Organizaram cestas básicas, fizeram doações, criaram kits de artes para as infâncias confinadas, juntaram itens de higiene pessoal, acionaram a justiça, ingressaram nas casas pelos espelhos negros dos aparelhos eletrônicos e fizeram campanhas para que todas as famílias entendessem a gravidade da pandemia. Com as colunas rotas seguiram por horas a fio a ligar, a enviar mensagens, a gravar vídeos, mensagens de voz, fazendo novas curadorias das experiências possíveis e criaram novos canais, tais como a Rádio de Bitita (conheçam essa experiência e a beleza deste trabalho. Foram à casa dos estudantes e com a chegada do inverno separam roupas para as infâncias, juventudes e culturas do mundo adulto. Doaram colchões e camas para as famílias que seguiam a dormir no chão. Doaram celulares, computadores e tablets, na tentativa de que se mantivessem em contato com o invisível que ainda estava por vir. Foram móveis, fogões e geladeiras em uma corrente que procurava manter a todos e todas a salvo. Ao fim doavam o que já não tinham. Orientavam a necessidade de procurarem ajuda da saúde frente a pandemia, a febre, a falta de ar e a tosse. Enquanto muitos admiravam o céu límpido da cidade que parara, a beleza das águas cristalinas dos canais de Veneza e as campanhas publicitárias dizendo “vai passar”, sabíamos que sob as telhas havia outros mundos.

Dois meses depois das suspensões das aulas presenciais as notícias já eram aterrorizantes. Dezenas de mortes entre os familiares dos educandos e sabedores que somos das garantias dos mais velhos, padecemos e nos colocamos a chorar. Nem sempre em público e há quem aproveite as águas do banho para que a família não perceba o sem fim das dores que nos acometem. Dividir os espaços com nossas famílias requer força que nem sempre está em nós.

Professoras e professores são feitos também do diálogo, do amparo e da confiança de que é possível investigar o mundo para revelarmos outros. Ao sabermos do falecimento dos avós, tios, pais e mães, sabíamos que além do luto restava agora pouco recurso financeiro, que antes advinha das aposentadorias e da força de trabalho destes familiares. Com pesquisa feita em maio descobrimos que um terço das famílias de nossa comunidade estavam passando por sérias necessidades econômicas. O desemprego imperava com o fechamento do comércio, com a suspensão dos serviços de limpeza das empresas, com a suspensão do comércio ambulante, com o fechamento dos restaurantes e, com isso, revelou-se mais uma vez o Brasil desigual que anunciamos diariamente ao nos encontrarmos com as infâncias e juventudes.

Continuamos com os corpos doloridos e insistimos. Se a ferramenta tecnológica institucional não funcionava para 70% das famílias, abrimos novas frentes de comunicação e já não havia mais hora certa para as mediações. Com recursos próprios e sem o apoio dos governos, seguimos porque era ético seguir, não porque somos heroínas e heróis, mas porque também somos feitos das potências de quem aprende. Somos trabalhadoras e trabalhadores! Sem as pessoas que estão a desvelar os mundos, nossa identidade se quebra e estivemos em busca delas o tempo todo. As professoras relatavam conversas as nove horas da noite, pois era a única possibilidade frente ao trabalho da mãe. Contavam do atendimento que fazem aos domingos, quando a criança pode acessar o único aparelho celular da casa, sendo que a mãe e o pai trabalham fora durante a semana. A companheira, vendo o silêncio da família organizou os materiais e foi a casa da estudante, ao chegar lá descobriu que para além dos estudos faltava-lhes tudo. Da ausência do teto ao afeto de quem está a crescer na cidade mais populosa deste Brasil. Sem ter a certeza de que o que fazia era o melhor caminho se colocaram a amparar afetivamente os estudantes dizendo: você não está sozinho, eu estou aqui! A professora, ao iniciar a vídeo chamada e ver seus estudantes lacrimejou, marejou e pediu desculpas por não conseguir falar de imediato.

Os chamados são diários: “o estudante não sai do quarto e a mãe não sabe o que fazer”, “o menino está se cortando”, “ela tem postado frases que mostram que está sofrendo muito”, “ela está cuidando dos irmãos pequenos, incluindo um recém-nascido”, “ela começou a trabalhar em dois lugares, mas ela só tem 13 anos”, “o pai já não o visita mais, diz que pode passar COVID para ele”, “ela me mandou uma mensagem dizendo que o padrasto ameaçou sua mãe com a faca”, “ouça este áudio da mãe, ela não consegue mais”, “eles estão passando fome, foram despejados”, “como podemos ajudar?”, “ouça a máquina ao fundo”, “não estou bem professora”, “a família já não responde mais as minhas mensagens”, “a família me bloqueou”, “não atendem”, “o irmão dele morreu”, “não conseguimos contatos”, “começou a trabalhar entregando água”, “encontrei-o ao lado da mãe que vende milho naquela rua, estava sentado na calçada com o olhar distante”, “está costurando e só tem 10 anos”, “ela engravidou”, “conversei com a assistente social e é muito difícil que ela estude neste centro de acolhida”, “eles precisam de comida”, “ela me mandou uma mensagem de que está no farol limpando os vidros do carro”, “a mãe pediu que eu conversasse com o irmão mais velho dele que não é mais nosso estudante pois ele não está conseguindo na nova escola”, “não sei mais o que fazer”, “estou cansada”, “estou exausta”, “estou em crise”, “não sei mais o que pensar”. “Sei que devo ligar de novo, mas não aguento mais não obter respostas”, “quero desistir”, “não sei mais o que eu sou”, “faço de tudo, menos ensinar”, “chega!”, ninguém enxerga o que estamos fazendo”, “hoje ele saiu do quarto”.

Ser professora e professor nos últimos setes meses assemelhou-se com um astronauta que de repente se desprende de sua nave, sem jatos propulsores, sem alimentação adequada, em processo de distanciamento contínuo, puseram-se a girar pelo infinito, sem contato, sem retorno de seus chamados, carregando consigo a tecnologia do mundo, mas sem que ninguém os escutassem e sabedores que somente o contato pele a pele, olho no olho seria capaz de reatar o ato de investigar o mundo. Assim nos transformamos num rascunho. “Uma forma nebulosa, feita de luz e sombra” …

Em sete meses ouvimos diariamente o sopro de Floyd: “I can’t breathe” … “I can’t” … Vimos a força policial matar, assassinar, torturar, exterminar a juventude negra desse país. “Fui a janela e gritei! Gritei como se fosse meu filho! O que estão fazendo? Como um menino some da porta de casa e aparece morto? São os nossos alunos”. Pela janela dos apartamentos, restava-nos pouco mais do que os pedidos de petições, manifestos, moções e abaixo assinados.

Nos noticiários sucederam-se os ministros da educação que seguiam a nos apagar, de início o fugitivo para o Banco Mundial, a seguir outro ministro que forjou seu currículo e não pode sequer dizer a que veio. Agora contamos com um ministro que entende que outras identidades de gênero, que não sejam as que ele se pôs a concordar, derivam-se de famílias desajustadas. Chamaram os empresários da educação para dizer quando era hora de voltar, do Instituto Ayrton Senna aos senhores de negócio que dirigem a AMBEV. Discute-se tudo, menos a educação em tempos de pandemia. Todos têm a fala, menos professoras e professores. Sabemos que o silêncio é uma das formas de nos violentar, de nos apagar e de fazer com que sequer os problemas sejam vistos. Da panaceia que criaram, ainda houve espaço para que indicados a ministro da saúde dissessem da “burrice” que acomete as professoras e professores. A imprensa passou a apresentar o esforço sobre humano de alguns professores e professoras que cruzavam rios e mangues para entregar as atividades para os estudantes, as mães e pais que criaram casas e abrigos para que os filhos pudessem estar em lugares onde há sinal da Internet. A relação da educação passou ao campo do empreendedorismo individual e dos atos de coragem, sem uma política educacional orquestrada para garantir a existência das famílias, seus direitos e o novo cenário de ensino remoto. Em uma espécie de Deus nos acuda, curvaram-se a espera das saídas que cada rede pudesse apresentar. Sabemos há muito de que não se trata de uma crise na educação, mas de um projeto de destruição e sucateamento permanente. Mesmo sabendo que há 193 anos, com vistas a fazer do Brasil a terra deixada para trás na fuga da família real, Dom Pedro decretou que todas as cidades, vilas e lugarejos tivessem escolas dedicadas as primeiras letras. Isto se deu em 15 de outubro de 1827, e desde então reconhecemos esta data como o Dia de Professoras e Professores no território nacional, coisa que só viríamos a executar em tempos democráticos, tendo atravessados duas ditaduras, genocídios e um parco reconhecimento do papel da educação para a construção de uma sociedade justa e igualitário no Brasil. Entre o orgulho que tenho de pertencer a este grupo de professoras e professores e o ano de 2020, restou um amargo na boca, um aperto no peito que encerra vidas e a certeza de que os desafios que enfrentaremos serão imensos, com um índice de evasão escolar que nos lembrarão da primeira metade do século XX; uma disparidade entre as redes de educação pública e privada revelada por provas que não medem a eficácia das políticas educacionais; o desemprego; o ingresso na miséria de milhões de famílias e a transferência dos recursos da educação para outras pastas sob a defesa absurda de que querem um Brasil melhor. Estão todos a nos desqualificar, pois desconfiam que nós sabemos e estamos vendo diariamente o resultado das políticas dos governos de nosso país.

Como professoras e professores aprendemos ao longo dos últimos 40 anos que a educação na diversidade e inclusiva deve se contrapor a lógica de educação especial a que querem retornar, onde crianças com deficiência são alijadas das aprendizagens e do convívio com seu grupo etário com a pretensa ideia de protege-los e dedicar-lhes mais atenção. A partir dos pressupostos da educação integral, já trabalhávamos com vistas a construção de outra sociedade! O professor Don Gregório, em “A Língua das Mariposas”, em seu ato final em sala de aula no dia de sua aposentadoria anunciava: somente com uma geração inteira vivendo em liberdade poderemos anunciar outros tempos! As ondas conservadoras se levantam, pois sabem que estamos no meio do caminho.

Na boiada que passou e pôs a arder a Amazônia e o Pantanal, sabemos os conteúdos do retorno das atividades presenciais, que colocará fim a este processo de alienação a que fomos condicionados. O fogo não há de arder para sempre e estaremos com o que sobrou de nós para novamente recomeçar o processo formativo educacional de todos e todas.

Dizer sobre professoras e professores este ano necessariamente significa anunciar o que foram para além da educação. Foram muitas, ainda que no invisível dos dias, dos lutos dos inumeráveis que partiram em meio a pandemia. Quero aqui agradecer a partilha dos dias com todas as professoras e professoras que dão vida as possibilidades de outro amanhã no Espaço de Bitita, na região do Canindé, na cidade de São Paulo, neste estado desigual e no Brasil silencioso e atento. Tenho orgulho de estar entre as companheiras e companheiros que permanecem convictos de seus propósitos, ensinando seja onde for, caindo e levantando, no silêncio entre as palavras.

*Texto publicado originalmente no Medium de Cadú Fernandes